1 de jan. de 2012

escreva

Escreve
anda
rabisca com giz de cera colorido
essa folha de papel
esquece tudo que te disseram
esquece o que tu fazes
esquece tudo que tu gostas
esquece o que tu és
e sede tudo que tu esqueces

Escreve
vai
não tenhas medo
não olhes para baixo
antes de pular no abismo impenetrável
não acendas a luz
mergulhes no escuro
não respires
não penses
não ouses
seja

31 de dez. de 2011

Alguém passa logo essa champanhe

É engraçado pensar que eu ia iniciar esse texto falando que já havia começado e agora ele já está terminando. Eu odeio esse frenesi de final de ano.
Tudo começa com a musiquinha da Leader Magazine. Parabéns, vocês começaram o natal dois meses mais cedo, aposto como a Samoa está morrendo de inveja. Aí as pessoas começam a decorar suas casas, os papais noéis se proliferam pelos shoppings e quando você vê aquele seu tio careca está fazendo a piada do pavê ou pacumê(a mais sólida das nossas tradições natalinas) na confraternização de natal da família.
Mas o que me mata mesmo é o ano novo.
Em primeiro lugar, eu nunca sei o que desejar pras pessoas. Feliz ano novo, ok. E depois? Muita paz? Que tipo de paz? Existem diversos tipos de paz. Paz de espiríto, paz forçada, paz antes da merda arrebentar (meu tipo preferido). Felicidade? E se o cara for sádico? Você vai estar indiretamente desejando que ele sofra horrores durante o ano. Como você consegue desejar isso pra uma pessoa e ainda dormir em paz consigo mesmo, seu monstro. O campo dos desejos é deveras vago. No máximo, eu me arrisco num prático "pra você também", o que é uma espécie de garantia do funcionamento do karma.
E tem as resoluções. Qual o sentido de fazer resoluções que nunca serão cumpridas? A menos que você esteja concorrendo a uma vaga no Senado, esse é o tipo de coisa que não faz o menor sentido pra mim. Por isso eu tomei como resolução não mais fazer resoluções, o que eu tenho feito com louvor.
E tem também essa coisa da renovação. Como se um número, fora do universo financeiro, fosse realmente capaz de mudar algo na vida das pessoas.
E fica essa coisa de esperança, com as pessoas vestindo branco se abraçando e comemorando por aí, o que eventualmente acaba com algum amigo bebado na praia vomitando e tendo que ser escoltado pelos demais, o que é um tanto quanto constrangedor.
Esperança. Acho que é isso então. É tudo sobre esperança. Durante um dia, as pessoas vivem e respiram a esperança de que um dia tudo vai melhorar. As pessoas vivem como se pudessem escrever seus sonhos numa folha em branco. O sonho do ano que desabrocha.
Para os que acreditam, feliz ano novo.

P.s: eu ainda odeio esse frenesi de ano novo.

Zé vs Alcidess(2)

Ontem, como não estava fazendo nada, eu propus ao meu amigo Alcidess (nunca entendi porque dois esses) um duelo de contos. Ligeiramente diferente do primeiro. Cada um tinha que usar três frases escolhidas pelo outro no terceiro, sexto e nono paragráfos. Além disso, tínhamos que incluir, no sétimo parágrafo, uma situação inesperada elaborada pelo outro.Mas nós só podíamos vê-las ao chegar no sétimo paragráfo,  de modo que a coerência ficou seriamente prejudicada. O Alcidess teve que usar as seguintes frases:
"eu vi a lua e ela é azul"
"tem certeza que esses pingüins são domesticados" e
"eu quero um maçarico mamãe"
e usou a seguinte situação absurda:
"Um ornitorrinco saltitante usando pompons e uma curiosa sapatilha verde choque pergunta para a senhora gorda com vestido roxo claro de babados: "com licença, a senhora viu uns anões disfarçados de pingüins por aqui? eles me pediram um maçarico verde emprestado” "
Já eu fiquei com as seguintes frases:
"um tolo vale mais que um saco de farinha"
"uma gaiola é sempre uma gaiola" e
"viver é uma bobagem"
e eu usei a seguinte situação:
"É imediatamente revelado que a assassina é na verdade uma das personalidades múltiplas de um dos homens do enredo. A personalidade deve se chamar Rita."

O dele

Era uma noite fria e escura. Além de fria e escura era também úmida e ventosa. Definitivamente uma combinação de qualidades que a desqualificaria como uma noite de verão. Porém, a realidade não aceita regras impostas por escritores comuns e toma para a si as rédeas do que considera bom fazer ou ignorar. A realidade é uma dama geniosa.

Acompanhemos agora um cavalheiro que fazia par com todas as qualidades dessa noite, era frio, encapuzado, nauseabundo e um pouco menos do que se consideraria gordo. Tinha também um bigode e um cavanhaque desses que dizem aos passantes que seria melhor confiar em uma cobra do que no dono da composição facial.

Acompanhemos pois esse cavalheiro na mesa de carteado onde se encontrava. Junto com outros três cavalheiros enquanto jogavam amistosamente uma partida de pôquer. A fumaça dos charutos desses cavalheiros antiquados era tamanha que a estratégia na mesa resumia-se a simplesmente modificar a roubar, encoberto pela clausura do nevoeiro de alcatrão, as fichas do jogador ao lado enquanto este se ocupava de fazer o mesmo com o colega próximo. Eis que nesse estado de concentração e de estratagemas mil que se fazia presente um dos convivas, ligeiramente mais embriagado do que os outros exclama abobalhado: “eu via a Lua! E... ela é azul!”

Todos os presentes imediatamente dirigem seus olhares para uma estupenda bola azul que se eleva sobre as faces pasmadas e incrédulas dos pecadores que imediatamente tomam consciência de terem diante de si uma revelação divina. Iluminados pela luz azul um dos ilustres jogadores, o nosso companheiro avantajado!, menos ébrio que os demais nota que a esfera não é de maneira nenhuma a Lua. Embora pareça de fato ser feita de queijo.

Uma análise mais atenta remove de supetão todas as dúvidas acerca da natureza divina da aparição que se lhes fazia. A bola azul era tão só e apenasmente o lustre que pendia sobre as suas cabeças havia as tantas horas que jogavam. A diferença é que agora a lâmpada que estava acesa havia mudado do brilho branco e artificial de uma lâmpada fluorescente para o brilho azulado e intenso de alguma coisa sobrenatural.

De chofre a cena se transforma! O lustre que perigosamente pendia no ar sustento por uma corrente desaba sobre a mesa dos apostadores! Não se parte em cacos, ao contrário, intacto permanece girando com sua forma esférica no centro da mesa fazendo o barulho irritante típico de todo barulho indesejado. Do lustre saiu um diabrete que se fez presente no centro da mesa abrindo suas asas infernais e espalhando um brilho negro do fundo de seus pelos ensebados. Imediatamente acompanhado de outros diabretes que tomavam a sala não voando, mas andando a passos tortos e arrastando as assas negras pela mesa antes os olhos incrédulos de nossos gentis-homens. “Tem certeza de que esses pinguins são domesticados?” retrucou ante os olhos incrédulos o nosso primeiro homem, o ébrio chegado a dizer tonterias.

Eis que os diabretes usando seus poderes diabólicos das trevas do mal enfeitiçam os jogadores que desabam em coma profundo! Embriagados em uma viagem lisérgica os quatro convivas se reúnem em pesadelo. Ao fundo psicodélico distinguem músicas dos anos 70 enquanto diante de si veem desenrolar uma cena que lhes arranca golfadas de angústia do estômago. Um ornitorrinco enfurecido e tomado de bestial sede de sangue avança sobre uma mulher rechonchuda ameaçando-a com suas patas ferozes cobertas por sapatos verde choque de onde se entreveem garras demoníacas que por sua vez brandem coléricos pompons cor-de-rosa como clavas forjadas no fogo ardente dos infernos. Interrogava a pobre mulher: “Com licença – o sarcasmo escorria-lhe pelo cato do bico – a senhora viu uns anões disfarçados de pingüins por aqui? eles me pediram um maçarico verde emprestado?”

O chão se abre e os quatro companheiros de carteado desabam no abismo sem fundo das cores antes inimagináveis e por entre carmesins e purpuróseos flutuam rumo ao desconhecido das profundezas da criação humana. Quando estacam! E param em pleno ar, flutuando entre manchas coloridas como numa lâmpada de lava. Dissolvem-se seus corpos e entre derretidos coloridos mesclam-se os quatro em uma grande bola de sebo amarelo-real que explode em pinceladas oníricas com as 14 milhões de cores indescritíveis aos olhos intreinados dos humanos.

Acordam os quatro sobre a mesa, falta-lhes algo. Sentem um vazio interior que não se assemelha à fome mas a algo tão mais profundo... Veem um bilhete: “Obrigado pelas almas” e imediatamente lembram-se dos diabretes. Bêbados que estão, contudo, não tomam grandes impressões da história. Olha a mesa bagunçada e o lustre caído no meio de tudo. O quarto participante, que até o presente momento se mantivera mudo apesar dos efeitos do álcool e dos acontecimentos, levanta-se e proclama: “eu quero um maçarico, mamãe!” E tão logo recebe o instrumento requisitado sobe destemido na mesa decidido a consertar o lustre. Ao que é prontamente aplaudido pelos outros que lhe elogiam a clareza de ideias.

Bamboleando, equilibra-se no feltro engordurado sujo de whisky. Até que por mister destino. Espatifa-se quebrando o pescoço e levando consigo os outros três amigos num incêndio que devastou de tal forma o quarto que foi impossível para os policiais saber quem afinal estava perdendo e teria um motivo para matar os outros três.


O meu

Filho, vai comprar farinha ela disse. Porque não era ela que tava de pijama, lógico que era aqui do lado. Mercados não costumam mudar de lugar. Pelo menos não os que eu conheço. Não os supermercados e mercadinhos de concreto. Valeria a pena viver num mundo onde supermercados saem andando por aí impunemente? Como feiras itinerantes. Se fosse um mercadinho itinerante, eu talvez tivesse como mandar outra pessoa fazer isso. Alguém com um carro. Mas como não tivesse escapatória, saltitou levemente e continuou seu caminho numa falsa alegria contagiante. Ah! Ele assoviava também. Assovio ou assobio? nunca soube a diferença...

Farinha farinha farinha farinha farinha farinha rinha fa rinha fa rinha fa rinha as palavras ficam realmente engraçadas depois que você repete elas. Algumas palavras não precisam ser repetidas para ficarem engraçadas. Tipo jaculatória. Você poderia falar jaculatória um milhão de vezes sem saber o que é jaculatória e riria do mesmo jeito. Hmmm farinha farinha farinha cadê cadê cadê AQUI!!

Meio saco de farinha por favor. 15 moedinhas por favor. Ok. Aceita um tolo. Não. Como não?! Um tolo vale mais que um saco de farinha! Não aceitamos tolos nessa loja senhor, apenas moedinhas. E depois você ainda quer que eu leve o troco em balinhas? Senhor, nós aceitamos apenas moedinhas. Ah, qual foi... O que eu vou fazer com meu irmão mais novo então? O caixa olha para os lados sorrateiramente e sussurra rapidamente em seu ouvido seu irmãozinho é mesmo um tolo? da pior qualidade respondeu baixinho excelente, negócio fechado. Mas o senhor terá que aceitar o troco em balinhas.

Ele voltou pra casa certamente mais alegre do que quando tinha saído. Estranhamente, demorou menos tempo para voltar para casa do que para ir para o mercadinho. Quem sabe então era verdade o que o tio Carlinhos sempre dizia nos jantares de família (entre o pavê ou pacumê? e chamar o vovô de aeroporto de mosquito) demoramos mais para ir do que para voltar. Ou talvez tenha sido só aquele atalho mesmo.

Oi mãe trouxe a farinha. Que bom filho! Cadê seu irmãozinho. Troquei ele pela farinha. Ah, tudo bem, seu pai e eu vamos fazer outro, não tem problema. E o troco éééééééé eu peguei o troco em balinha. O QUÊ!?! VOCÊ NÃO TEM RESPEITO PELO TRABALHO DOS SEUS PAIS NÃO?!?! TRÊS ANOS NA SUA GAIOLA!!!! Mas mas foi a condição do cara pra trocar o saco pelo meu irmãozinho Hmmm, boa troca. Seis meses pelas moedinhas. Walter, o juninho tá quase pronto pra Wall Street.

Oh!
Morte lenta e dolorosa!
Eu a saúdo!
Saúdo como amiga, companheira
saúdo-te como amante!
Oh Bela Morte Lenta e cala boca seu viadinho! Você só tá a cinco minutos nessa gaiola e já tá desesperado. Você não é metade do homem que seu pai é! Eu não tenho metade da idade dele. Cale-se! Deixe-me sair! Isso é insano! Isso é um castigo. Uma gaiola é sempre uma gaiola! E um castigo é sempre um castigo. Quem sabe da próxima vez você não pense antes de aceitar o troco em balinhas?

Espera mãe! Isso é mais do que moedinhas e balinhas! É sobre liberdade! Dignidade! Quem vai comprar farinha pra você agora que eu estou trancado nessa gaiola? Hmm é verdade... Então você vai me libertar? Não seu frangote, eu vou te matar. O quê? Ela puxou a faca engole esse choro ou eu te degolo. Ele se espremeu num dos cantos da sua gaiola redonda. Pare de choramingar balbuciar implorar solte meus pés disse ela desferindo um violento pontapé no garoto que cinco segundos antes se encontrava prostrado aos seus pés isso é pelas moedinhas disse ela e seu rancor foi a última coisa que ele ouviu.

Então, o juninho não vem pra mesa. Ele já está na mesa? Ele é invisível agora? Ele é seu empadão. Walter engasgou com o susto. Nosso filho... Ele tem um paladar agradável. Ah, obrigada, demorou um tempão pra matar. Escuta Shirley disse Walter sério encarando-a através das lentes de seus óculos porque você fez isso? Não fui eu, foi a Rita. Rita? Quem é Rita? Minha personalidade assassina. Tá bom. Que cara é essa. Ela avisou que vai fazer um sanduíche pro Tião. Outra personalidade? Ahã. Ah, ela me mandou te matar.

Shirley, para trás. Eu não respondo por esse nome. Sejamos razoáveis Rita. Não, eu quero seu sangue. Nos olhos de Rita faiscavam o desejo, a cobiça, o gozo infinito. Eu sou seu marido! Não, você é o marido da Shirley. E cadê a Shirley? Tá ocupada. Com o Tião. Rita, guarda essa faca, por favor! Eu imploro, poupe minha vida. Viver é uma bobagem.

Walter chorou.

Shirley estava sentada num canto acolchoado. Balançava freneticamente sua cabeça de trás para frente. Abraçava seus joelhos. Era a única posição que lhe era permitida pela camisa de força que usava. Então Rita, o que fazemos agora? Esperamos meu docinho. Pelo quê? Não sei, docinho, não sei. Nós vamos esperar para sempre? Talvez. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Shirley. Não fique assim meu docinho disse Rita ops, eu preciso sair rapidinho. O Tião tá me chamando.

2 de nov. de 2011

pouco me importa
se o sol lá fora
entra pela janela
do meu quarto
pra me convencer do contrário

pouco me importa
se o riso das
crianças
voa como se fosse
um dia ordinário

pouco me importa
a alegria alheia
o movimento
das ruas
o caos
da cidade

pouco me importam
os sons urbanos
que tentam me mostrar
a vida que ainda insiste
em existir

pouco me importam
as emissões de gases
poluentes
o tic tac dos relógios
o tempo que
inexorável tempo
que nunca para

pouco me importa
se o sol brilha com força
se o céu é azul com força
se as nuvens fugiram
para outra dimensão


sempre chove em finados
e eu sinto sua falta

27 de out. de 2011

Estrófe 5

Eu gosto dos meus
poemas como eu
gosto dos meus
bifes:
crus e
indigestos

19 de out. de 2011

Cronos

10 minutos

O que você faria se tivesse apenas dez minutos de vida? Eu?, bom, acho que eu faria algo bem explosivo, sabe. Eu ia querer me despedir com bastante estilo. Chamar a atenção de todo mundo, sabe. Hein? Como não? Eu não conhecia esse seu lado tão discreto amor. Sim, eu sei que é só o terceiro encontro mas eu sinto Tratante eu?! Garçom! Francamente, o atendimento desse restaurante é uma merda. Não muda o assunto!! Calma, amor Desculpa! Lu! Calma Lu, eu só acho que a gente uma hora ia ter que comer não, eu não uso subterfúgios. Ah! O garçom chegou.

9 minutos

Tic Tac

Alguma entrada? Que tal am Lu? Um carpaccio? Sim, um carpaccio. Para comer... Eu vou querer uma salada e você? Bom, eu quero um contra-filé. Qual o ponto? Ao ponto pra mal. Ah, vejo que o cavalheiro gosta de viver perigosamente. Bota perigosamente nisso. Eu ouvi um certo sarcasmo nessa sua voz? Ok ok, não precisa encarar. E a carta de vinhos. Ah..., pede uma champagne... Uma Veuve Cliquot por favor. De fato o cavalheiro gosta de viver perigosamente.

Sai de cena o garçom.

Fique constatado que uma boa champagne acalma as feras.

8 minutos

Tic Tac Tic Tac

Então voltando ao assunto E a inflação né... Inflação?? É muita cara de pau sua vir discutir inflação comigo no terceiro encontro!! Principalmente depois daquela grosseria! Imagina se alguém ouve que vergonha. Ah amor Fez de novo!! Seu tratante!! Ah, mas se eu não saio daqui! Lu, não vamos fazer tempestade em copo dàgua. A gente precisa aproveitar a vida. Imagina se a gente morre daqui a oito minutos. Você não devia ter quebrado a hierarquia! Lu... eu já pedi a champagne. Imagina que horror, devolver a champagne. Ok, eu fico, mas vou no banheiro.

7 minutos

Tic Tac Tic Tac Tic Tac

Então a dama realmente te deixou? Eu cancelo a Veuve Cliquot? Acho que alguém está muito abusado essa noite. Ela só foi ao banheiro e voltará daqui a pouco. Ah, aqui está ela. Bem na hora Lu! O garçom sai com cara de quem cuspiria no minestrone do moço, se ele tivesse pedido um minestrone. Você quer  que eu te sirva? Eu me sirvo sozinha (¬¬) Isso significa que você está pronta para dividir a conta? Eu não acredito!! No terceiro encontro!! Eu acho que eu vou explodir!!!! Eu vou ao banheiro! E não me olha com essa cara!

6 minutos

Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac

O seu minestrone senhor. Mas eu não pedi nenhum minestrone! O senhor vai mesmo querer jogar comida fora? Se o senhor tivesse anotado meus pedidos! E a dama... Me dá logo esse minestrone!! E trate de trazer a Veuve Cliquot!!! E pelo amor de Deus não me faça mais perguntas!!!! ...  Esse minestrone tá com um gosto esquisito. Acho que ele veio um pouco frio. Eu é que não pago essa bosta, nem pedi mesmo.

Ele tinha cara de Astolfo. De fato, só um Astolfo pra pisar assim na bola. Ainda mais com uma Lu. Deve ser algum tipo de predestinação.

5 minutos

Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac

A salada. E o contrafilé? Não está pronto ainda. Mas aí eu vou comer sozinho? Se a dama for embora, acredito que o cavalheiro não poderá culpar a nossa comida. Olha que eu não pago os dez por cento hein. Ah! Olha quem voltou do banheiro. Não acredito, já vai voltar? Você nem se sentou?!? De súbito o narrador percebe que o público não está minimamente interessado nas idas e vindas da fêmea que convencionou-se chamar de Lu ao banheiro enquanto seu acompanhante fica sozinho com o garçom, que aliás cultiva um exuberante bigode à moda portuguesa. Portanto, fique registrado que daqui em diante não haverá mais nenhuma pessoa indo ao banheiro neste texto, apenas em casos de necessidade dramática.  Aliás, o mesmo narrador  deixa registrado que durante está longa divagação o tempo permaneceu congelado.

Pausa dramática




Fim da pausa dramática

Ele deu uma olhada a sua volta. Lu estava sentada de frente para ele, encarando esperançosa a champagne. As toalhas pareciam um pouco mais azuis, o garçom estava sem bigode e seu minestrone, que ele nem tinha pedido por sinal, estava frio. Fora isso, nada de muito extraordinário parecia ter ocorrido durante a pausa dramática. Ainda assim, foram momentos bem dramáticos.

4 minutos

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Você já teve a impressão de estar sendo seguida por um relógio? Hein? Olha lá!!! É o Reinaldo Giannechini!!! Aonde?!?! Esquece, era só um garçom parecido. Ah... Você estava falando... Demora essa comida não? Minha salada chegou. Aí, tá fria! Acho que vou pedir para esquentar. Chama o garçom?? Não acredito!! Você não acha que vai ficar muita apelação?? Ficar chamando o garçom cada vez que o narrador esbarrar nas limitações dos seus personagens incipientes??? Apelação é você e essa sua metalinguagem ironizando o autor. Só não vou o banheiro porque fui proibida!

3 minutos

Tic tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac

O que você faria se tivesse apenas três minutos de vida? Acho que você já me perguntou isso não? Variações do mesmo tema sem sair do tom. Deve ser efeito da champagne. Mas nós não abrimos a champagne! Hmmmm... éééé... você não acha que essas toalhas estão um pouco mais azuis? Hein? Você notou que nossa entrada ainda não chegou? O carpaccio? É verdade. Realmente, o atendimento desse restaurante é uma merda. É um inseto na minha salada?? Parece uma lagarta... gigante... Garçom!! Tem um inseto na salada da moça. Eu irei trocá-la senhor. Aproveita e dá uma esquentada por favor. Esquentar ... a ... salada... certamente senhor. Você notou que o bigode do garçom sumiu?

2 minutos

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O que a gente não faz pelos 10%... Senhora, sua salada. Agora ela tá murcha. E a lagarta tá muito seca. Não tem como trocar por uma mais fresquinha? E com uma lagarta um pouquinho menor e mais gordinha? Sim senhora. Se eu encontrar o gerente dessa espelunca Chamou? Personagem macho vs Gerente: Let the fight begin. Isso ficaria infinamente melhor em quadrinhos. Hein? Quis dizer o atendimento do seu restaurante é uma droga! Uma droga não, uma merda! Isso é bem pior que uma droga! Ah sim, acontece o tempo todo. Vamos fazer assim, eu vou dar um sorvete de graça para vocês. Achievement Unlocked: Ganhar um sorvete de graça do gerente barrigudo de graça. Amor +4, Inteligência +3, Culhões +7, Conta -10%.

60 segundos

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Você fooi tãããããooo Foi daqui que pediram um bife? Mas ele tá cru! Eu pedi ele ao ponto para mal! Eu tentei avisar... Esquenta esse bife. Eu não acredito que vai demorar ainda mais. O senhor não tocou no seu minestrone. EU NÃO PEDI A PORCARIA DO MINESTRONE!!!! E ELE TÁ CRU!!! CRU!!! Senhor, um minestrone não pode vir cru. Chama o gerente! Sinto muito, só um sorvete por mesa.

50 segundos

Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tic Tic Tic Tac Tic Tac Tac Tatatatac
Hfffff... seus olhos caramelo brilhantes estavam fixos nele e e nos indefindos dele e ela estava apoiando sua cabeça na ponte que fazia em suas mãos enquanto seus cabelos levemente castanho-louros escorriam da seu couro cabeludo e o brilho de seus olhos transparecia apenas uma mensagem




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40 segundos
To me sentindo tão frustrado... Aí liga não aaaa quer diz A o que!?!?! Hein? Você ia me chamar de amor não ia?! Ele estava explodindo por dentro. Aí, lógico que não. No quarto encontro?? Que loucura. Só tava dizendo que você foi tão corajoso enfrentando o gerente barrigudo de terno. Tipo assim, você viu a careca dele né? Que loucura.


Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic 30 Tac Tic Tac Tic Tsegundosac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tac Tac Tic Tac Tac Tac Tic Tic Tico Teco
Então... Falou ele num tom bem esperançoso. hmmmmmm Você não acha hmmmmm que a gente devia abrir a champagne? Ah sim, claro. E ela corou de leve e disfarçou no seu belo sorriso amarelo todas as indiferenças , imbecilidades, cegueiras e falta de higiene bucal do mundo. No seu belo sorriso amarelo.

20 segundos
E Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac muitos Tics muitos Tacs

Como um cavaleiro, ele serviu a campagne. Como uma dama, ela bebeu a champagne. Como um casal eles adentraram juntos o onírico mundo dos ébrios onde até o mais simples narrador se utiliza de expressões sofisticadas. E eles se afogaram, flutuaram, voaram e se amaram nas bolhas do champagne por tanto tempo que os dez segundos pareceram mesmo dez segundos

10
Olha, eu preciso te dizer uma
9
coisa hmmmm me con
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ta logo, nós não temos
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a noite inteira *Pigarro
¨6E
Escuta, eu andei aqui
5
pensando se você
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siiiiiiiiiiiiiim não que
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ria simmmmm
2
ééééé eu não sei bem como
1
te dizer isso que se dane eu vou
0
BOOOOOM!!!!!!

A bomba que estava debaixo da mesa deles explodiu. É uma ótima desculpa para um péssimo encontro.

Le garçom: Foi daqui que pediram um bife? Ah! A mesa explodiu! Ei, chefe, o casal da mesa 23 se auto destruiu! Posso ficar com o minestrone!?

E lembrem-se sempre: gatinhas adoram explosões.

17 de out. de 2011

Cai em pé e corre...

Para de correr. Hein? Para de correr agora. Mas tá chovendo. Exatamente por isso. Então você quer que eu me molhe mais? Não, quero que você se molhe menos. O quê?! Andando!? Cê tá maluco?! Não, é sério. Porra!! Como pode ser verdade!? É impossível!! É lógica!! Você corre, você chega mais rápido no lugar, você fica menos tempo na chuva e você se molha menos! Vê é igual à delta esse sobre delta tê! Já esqueceu disso?! Tá fazendo engenharia pra quê!? É cientificamente provado. Peraí... Você não vai mandar aquele papo de gato alienígena que solta raio laser de novo não né?? Não. Porque ninguém me leva a sério? Porque será... A pergunta foi retórica. Parece que alguém andou lendo o dicionário. Eu percebo uma leve ironia na sua voz? Quem? Euuuuuu? Fiquei até ofendido. Affff... Enfim, foi cientificamente comprovado! E o cara que comprovou ganhou o Nobel também... Aí! Você não me deixa argumentar! Reacionário! Escuta, quem provou isso? Newton? Einstein? Stefen Hawking? Primeiramente, é StePHen Hawking com ph. E não, não foi nenhum deles. Foram os Mythbusters [nota do tratudor: Caçadores de Mitos, um programa de TV da época em que o autor deste texto ainda assistia TV]. HAHAHAHAHAHAHAHA Agora você tá querendo me convencer que aqueles dois palhaços da tevê são cientistas sérios?? Ei! Tenha mais respeito ok? Eles usam jalecos e explodem coisas!Agoooooora sim! Acrescentou ele com um riso meio de escárnio, meio de cinismo e meio de peperoni no rosto, criando o primeiro riso 3/2 da História. Cínico. Cínico. Cínico. Você NUNCA vai me convencer que dois palhaços correndo embaixo de uma mangueira ligada chegaram a uma conclusão correta! EI!! Mais respeito amigão! Eles NÃO são palhaços!! Eles TÊM jalecos e EXPLODEM coisas coisas. E os jalecos continuam BRANCOS depois!!! E além disso, foi um experimento sério conduzido em condições controladas, dentro de um galpão simulando situações variadas de temperatura e vento garantindo uma precisão cirúrgica e ainda passou AO VIVO n EI!! Pra onde você tá indo? O ponto de ônibus é pro outro lado! Tá fugindo é? Você não sabe lidar com argumentos concretos e meu charme irresistível é isso? Tudo bem, pode tomar outro ônibus eu estou muito bem AH! Cala a boca! Eu não vou pegar outro ônibus.     Não?... Entããão... Aonde você tá indo? Comprar um guarda chuva