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4 de fev. de 2017

Democracia americana

Eu tenho pensado muito esses dias. 

O que não chega a ser exatamente uma novidade. Eu penso muito. Eu sempre pensei muito. Poderia ser facilmente descrito como um cara analítico, ao ponto de às vezes dar mais importância às minhas elucubrações e conjecturas teóricas do que aos próprios fatos que as originaram. Isso quando elas se originam de fatos e não meras divagações. Acho que vocês já conseguiram entender por esse parágrafo. Ou por todas as outras coisas que eu já escrevi na vida.

Enfim, eu penso muito. Sabemos disso. A única coisa que me salva de ser um teórico insuportável (a única espécie de teórico) é que eu também tenho uma boa capacidade de sistematizar as minhas idéias, organizando-as de uma forma mais concreta ou fática. 

Enfim, tudo isso me veio à mente enquanto eu refletia sobre o conceito de democracia. Sim, eu faço isso no meu tempo livre. Eu nunca disse que era legal. Essa reflexão veio enquanto eu observava as ações do Presidente Trump em sua caótica primeira semana de governo.

O desapreço de Trump por alguns dos valores caros às democracias modernas já havia ficado claro ao longo da campanha e mesmo em outros episódios recentes, como da sua primeira conferência de imprensa após a vitória nas eleições: foi assustador ver um presidente eleito impedindo um repórter de perguntar sob gritos e acusações vagas de "fake news". A forma como ele trata os repórteres que o desagradam - aliás, como ele trata a todos que o criticam publicamente de alguma forma - deixa claro que ele é formado e pós-graduado na escola Gilmar Mendes de liberdade de expressão.

E aí eu me lembrei que o grande campeão das ideias democráticas nesse século, e no que passou, foi justamente o país que ele agora preside.

Deixe a ficha cair.

Entendeu agora?

O que acontece com a ideia de democracia se os Estados Unidos viram uma ditadura escancarada?

Veja bem, eu disse que eles são campeões da ideias e não das práticas democráticas, afirmativa que seria questionável quando observamos a forma como eles se relacionam com o restante do mundo. E mesmo que ainda seja discutível se algum Estado Democrático de Direito é realmente democrático (eu disse que pensava demais) acho que a pergunta continua válida. 

Costuma se dizer que a mulher de César não deve apenas ser honesta, acima de tudo ela deve parecer honesta. A verdade é que as aparências ainda são de extrema importância. Em tudo. A imagem que construímos é crucial para nosso sucesso em nível pessoal, mas também para o crescimento das empresas e, podemos afirmar sem medo, até mesmo para a disseminação de ideais. 

E o que acontece com a ideia de democracia - já desgastada - se a "maior democracia do mundo" vira uma ditadura fascista?

Vejam bem: os EUA ainda estão muito longe de serem uma ditadura. E de serem fascistas. Mas com as recentes atitudes do Trump, que vem constantemente passando por saias justas desnecessárias, o país tem mostrado um nível preocupantemente baixo de respeito e estabilidade institucional. Por exemplo, conforme foi noticiado pelo The Guardian, agentes do DHS se recusaram a respeitar uma ordem judicial que declarou ilegal a ordem executiva de Trump proibindo a entrada de imigrantes de alguns países muçulmanos. Uma agência do governo federal (poder executivo) simplesmente se recusou a atacar determinação do poder judiciário, ainda que este estivesse apenas agindo no exercício regular de suas funções. E se acontecer alguma coisa lá? Quem pode dizer que não vai?

O socialismo morreu, o capitalismo agoniza e eu não ando me sentindo muito bem. Uma a uma as grandes ideologias vão morrendo. Pelo que a gente vai lutar? Querendo ou não, no mundo todo pessoas que vivem sob o jugo de regimes autoritários olham para os americanos como referência. Ainda que seja uma referência imagética, se até ela for perdida o que acontece?

Quando eu fiz o Ensino Médio, ensinaram a gente a fazer a redação problematizadora padrão ENEM. Apresentar um problema e dar uma solução. Uma pergunta e uma resposta. Não esperem uma solução para isso. Eu também não sei. Só vim aqui jogar essas palavras na rede e semear o caos.

In Trump we trust.

12 de set. de 2012

A democracia vem a cavalo

Os líbios acabaram de garantir uma passagem só de ida para a democracia.

Eu não sei se foi planejado ou espontâneo, mas foi certamente idiota. Atacar um consulado está no topo da lista de "10 coisas para se fazer quando se quer começar uma guerra". Atacar um consulado dos Estados Unidos, em condições normais, já seria algo próximo do suicídio. Ainda mais na Líbia e ainda mais nas conjunturas atuais.

Se tivesse um bolão para qual país seria invadido pelos EUA após a primavera árabe, eu apostaria pesado na Líbia. Tem todos os pré-requisitos básicos: instabilidade, risco ao Ocidente (muito perto da Europa) e, principalmente, petróleo. E agora eles tem um pretexto.

Não o mais forte dos pretextos talvez, mas com a opinião pública - uma força extremamente poderosa nos EUA, ainda mais em época de eleições presidenciais - clamando por justiça, Obama não terá outra opção a não ser entregar, numa bandeja, a cabeça dos assassinos. Ou os americanos elegerão quem o faça.

Em tempo: provavelmente foi algo planejado, afinal são poucas as pessoas que andam, habitualmente, com morteiros e lançadores de granadas. Mas, cobrindo a pequena possibilidade de ter sido espontâneo, eu gostaria de saber: quem foi o imbecil que decidiu levar morteiros para uma passeata contra um filme anti-Islã.

P.S: Acho que não causaria dano nenhum à imagem da comunidade muçulmana se eles parassem de atacar embaixadas sempre que alguém fala alguma coisa de Maomé.