11 de fev. de 2017

Moraes foi um erro, mas não pelo que te disseram

Muito foi dito, escrito e gritado sobre o novo Ministro do STF, Alexandre Moraes. Sim, Ministro. Vocês estão querendo enganar quem achando que ele não vai passar na sabatina? Que, inclusive, já foi adiantada. Aquilo no Senado é só para formalizar. Enfim, muito já foi dito e, dentro desse muito que foi dito, a maioria foi de gente contrária à indicação dele. Na verdade, tirando o Lênio Streck, que o fez de forma bastante irônica, ninguém o elogiou. 

Isso acontece porque a indicação acontece porque a indicação foi uma merda mesmo. O Moraes está mais longe de ter o perfil esperado para um Ministro do Supremo do que eu estou do sonho de namorar com a Gisele Bundchen (obrigado, Tom Brady). 

Entretanto, a maioria dessas críticas detona o Moraes pelos motivos errados. Poucas pessoas passam do moralismo trivial ao se referirem ao cabeça de pirulito, digo, ao Ministro Moraes. Só aqui, com exclusividade, você lê uma crítica séria, sóbria e sem moralismos, sem mimimis e sem frescuras sobre o porque nomear o Moraes para o STF foi uma tremenda cagada do Temer. 

Do que vi, li e ouvi por aí, podemos separar os argumentos em três grupos principais: (i) foi uma indicação política do Temer; (ii) o Alexandre de Moraes não sabe o suficiente de Direito para ocupar o cargo e (iii) ele foi advogado do PCC. Todo o resto é variante de um desses. Por trás de cada um desses se esconde um moralismo ou um boçalismo. O meu objetivo é desbancar cada um deles para, depois, falar porque ele foi um erro.

Bom, vamos lá. O Moraes foi uma indicação política. Óbvio que foi. Para quem não sabe, estamos falando de um homem que uniu, em sua carreira, os ideais do concurseiro e de quem segue carreira na área privada: desde que virou procurador tem se dedicado a bajular políticos para progredir rapidamente dentro do funcionalismo público. Foi dessa forma que ele chegou à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, depois ao Ministério de Justiça e depois ao Tribunal Federal (tá difícil chamar ele de Supremo hoje em dia). 

Além disso, era necessário que o Temer se livrasse dele e, ao mesmo, tempo impossível. Verdade seja dita: ele geriu de forma mais pavorosa que a sua brilhante careca as revoltas que eclodiram nos presídios Brasil e, mesmo antes disso, seu desempenho no cargo já vinha sendo, no mínimo, catastrófico. Obviamente já tinha gente pedindo a cabeça dele, inclusive dentro do PMDB. Ao mesmo tempo, o Moraes é filiado ao PSDB e homem de confiança do Temer. Não tinha como ele sair sem causar um desequilíbrio na base aliada. Dando a ele a vaga no TF, ele se livra do Moraes, já que as merdas dele deixam de ser responsabilidade do presidente, contempla o PSDB com um Ministro e abre mais espaço na esplanada para o PMDB. 

Mas não é errado? Olha, até é, mas todo presidente tem seu escudeiro na corte. O Lula teve o Toffoli até o cérebro dele ser misteriosamente reprogramado pelo Gilmar, o FHC teve o próprio Gilmar, o Collor indicou o primo etc. Enfim, o que o Temer fez não é novidade. É feio, mas comer doce antes do parabéns também é e todo mundo continua fazendo.

Ah, mas Zé, me falaram que o livro dele é uma merda. Sim, é superficial, mas qual livro hoje em dia não é? O nível acadêmico do Direito brasileiro atualmente é muito raso. Digo isso com dor no coração, por ser advogado e também acadêmico, mas é a verdade. Para quem não é da área, aquela coluna do Lênio que eu linkei no começo do texto pode ajudar a entender melhor o que se passa. O que, você não viu? Sem problemas, é essa daqui. De nada.

O Moraes foi um dos precursores dessa nova onda be boçalismo jurídico, com explicações rasas e um verdadeiro ctrl C + ctrl V da jurisprudência, sem refletir criticamente sobre as decisões que copiava.   Aliás, agora descobrimos que não eram só decisões que ele copiava. De qualquer forma, or incrível que pareça, o que veio depois foi ainda pior: a praga dos livros no estilo "Direito Descomplicado", "Direito Simplificado", "Direito para Idiotas" e "Curso de Direito Civil com Figuras" dentre outros. Ou seja, por incrível que pareça, ele nem é dos piores. E o Toffoli foi nomeado Ministro depois de ter sido advogado do PT a vida inteira e sem ter publicado nada relevante. Nada de novo no front.

Porra, tu é muito chato, Zé. Sim, eu sei. O cara foi advogado do PCC, como você explica isso? Primeiro, ele foi advogado da Transcooper, uma empresa de vans suspeita de ligação com o PCC. Ainda vigora o princípio da presunção de inocência por aqui, galera. Além disso, foda-se que ele foi advogado do PCC. Ele pode advogar para quem ele quiser. O advogado defende direitos e garantias, inclusive o que a gente chama de "devido processo legal", ou seja, o direito a ter um processo regular, tramitando conforme a lei. 

Toda vez que a gente coloca no quadro a equação "advogado de criminoso = criminoso" a gente está deslegitimando o exercício da advocacia, colocando em risco a atividade de diversos profissionais. Quem dúvida só lembrar de 2013, quando advogados foram perseguidos pela repressão estatal por defenderem manifestantes. A advocacia é muito mais que uma profissão, é uma atividade essencial para a manutenção dos direitos em uma sociedade democrática. Vamos mantê-la assim, que tal?

O que me revolta nesses argumentos é que toda vez que a gente se deixa levar por essa "cortina de fumaça", a gente esquece de sentar o pau no Moraes pelo que ele realmente merece. A gente está falando de um cara absolutamente ordinário. Enquanto eu escrevia esse texto, acabava de vazar o terceiro plágio dele desde a indicação ao cargo. Sem contar que ele contrariou o que disse na própria tese de doutorado ao aceitar um cargo. Parece que nem ele leu o que escreveu. Ou copiou. Não sei mais.

Além disso, a gente está falando de um homem que possui um verdadeiro tesão pela repressão. Até a ONU criticou ele pela conduta da PM na repressão às manifestações. Aliás, qualquer um que tenha visto o péssimo trabalho que ele fez como Secretário de Segurança Pública sabe da inépcia dele para o cargo. São Paulo hoje tem índices de violência altíssimos e uma das Polícias mais letais do país.

Para quem não lembra, foi na gestão dele que a polícia paulista maquiou os dados estatísticos para diminuir artificialmente o número de homicídios em São Paulo. Parece que não é só sobre a autoria de seus livros que nosso Ministro costuma mentir.

Além das evidentes falhas de caráter, eu preciso sublinhar outro traço do Moraes, que é o seu ego galopante. Ele faz de tudo para aparecer. Alguém já esqueceu dele anunciando a prisão do Palocci num comício um dia antes dela acontecer? E dele cortando os pés de maconha no Paraguai?




O pior de tudo, para mim, foi quando ele quase pôs uma investigação de um grupo terrorista a perder só pelo privilégio de uma coletiva. Acabou que a tal célula do ISIS no Brasil não era isso tudo, mas o silêncio constrangedor do então Ministro da Justiça quando perguntado como eles haviam conseguido as informações das conversas do grupo se o WhatsApp não as fornece deixou muito claro para todos que havia gente infiltrada na tal célula. Se fossem uma ameaça real, provavelmente os infiltrados teriam sido mortos e os terroristas teriam seguido adiante. Tudo porque ele não conseguiu se conter e tinha que sair por aí espalhando o que estava acontecendo.

Agora fechem os olhos e imaginem esse homem de toga. No Supremo. Vocês conseguem ver o que vai sair dali? Pois é. Por isso que ele não deve ser ministro de nada. 

4 de fev. de 2017

Democracia americana

Eu tenho pensado muito esses dias. 

O que não chega a ser exatamente uma novidade. Eu penso muito. Eu sempre pensei muito. Poderia ser facilmente descrito como um cara analítico, ao ponto de às vezes dar mais importância às minhas elucubrações e conjecturas teóricas do que aos próprios fatos que as originaram. Isso quando elas se originam de fatos e não meras divagações. Acho que vocês já conseguiram entender por esse parágrafo. Ou por todas as outras coisas que eu já escrevi na vida.

Enfim, eu penso muito. Sabemos disso. A única coisa que me salva de ser um teórico insuportável (a única espécie de teórico) é que eu também tenho uma boa capacidade de sistematizar as minhas idéias, organizando-as de uma forma mais concreta ou fática. 

Enfim, tudo isso me veio à mente enquanto eu refletia sobre o conceito de democracia. Sim, eu faço isso no meu tempo livre. Eu nunca disse que era legal. Essa reflexão veio enquanto eu observava as ações do Presidente Trump em sua caótica primeira semana de governo.

O desapreço de Trump por alguns dos valores caros às democracias modernas já havia ficado claro ao longo da campanha e mesmo em outros episódios recentes, como da sua primeira conferência de imprensa após a vitória nas eleições: foi assustador ver um presidente eleito impedindo um repórter de perguntar sob gritos e acusações vagas de "fake news". A forma como ele trata os repórteres que o desagradam - aliás, como ele trata a todos que o criticam publicamente de alguma forma - deixa claro que ele é formado e pós-graduado na escola Gilmar Mendes de liberdade de expressão.

E aí eu me lembrei que o grande campeão das ideias democráticas nesse século, e no que passou, foi justamente o país que ele agora preside.

Deixe a ficha cair.

Entendeu agora?

O que acontece com a ideia de democracia se os Estados Unidos viram uma ditadura escancarada?

Veja bem, eu disse que eles são campeões da ideias e não das práticas democráticas, afirmativa que seria questionável quando observamos a forma como eles se relacionam com o restante do mundo. E mesmo que ainda seja discutível se algum Estado Democrático de Direito é realmente democrático (eu disse que pensava demais) acho que a pergunta continua válida. 

Costuma se dizer que a mulher de César não deve apenas ser honesta, acima de tudo ela deve parecer honesta. A verdade é que as aparências ainda são de extrema importância. Em tudo. A imagem que construímos é crucial para nosso sucesso em nível pessoal, mas também para o crescimento das empresas e, podemos afirmar sem medo, até mesmo para a disseminação de ideais. 

E o que acontece com a ideia de democracia - já desgastada - se a "maior democracia do mundo" vira uma ditadura fascista?

Vejam bem: os EUA ainda estão muito longe de serem uma ditadura. E de serem fascistas. Mas com as recentes atitudes do Trump, que vem constantemente passando por saias justas desnecessárias, o país tem mostrado um nível preocupantemente baixo de respeito e estabilidade institucional. Por exemplo, conforme foi noticiado pelo The Guardian, agentes do DHS se recusaram a respeitar uma ordem judicial que declarou ilegal a ordem executiva de Trump proibindo a entrada de imigrantes de alguns países muçulmanos. Uma agência do governo federal (poder executivo) simplesmente se recusou a atacar determinação do poder judiciário, ainda que este estivesse apenas agindo no exercício regular de suas funções. E se acontecer alguma coisa lá? Quem pode dizer que não vai?

O socialismo morreu, o capitalismo agoniza e eu não ando me sentindo muito bem. Uma a uma as grandes ideologias vão morrendo. Pelo que a gente vai lutar? Querendo ou não, no mundo todo pessoas que vivem sob o jugo de regimes autoritários olham para os americanos como referência. Ainda que seja uma referência imagética, se até ela for perdida o que acontece?

Quando eu fiz o Ensino Médio, ensinaram a gente a fazer a redação problematizadora padrão ENEM. Apresentar um problema e dar uma solução. Uma pergunta e uma resposta. Não esperem uma solução para isso. Eu também não sei. Só vim aqui jogar essas palavras na rede e semear o caos.

In Trump we trust.

19 de dez. de 2016

Lavou tá novo

Temer não termina o mandato.

Pronto, falei. A experiência ensina que não sabendo como introduzir, de forma lenta e gradual, um assunto qualquer, às vezes é melhor jogar ele como uma bomba no colo do leitor e deixar ele explodir no colo do leitor. Bom, o assunto taí: Temer não termina o mandato. Não chega até o final do ano que vem como presidente.

Ah, Zé, porque você acha isso? Eu não acho, tenho certeza absoluta que ele vai tomar uma rasteira e cair (que coisa né?). Sério, se eu tivesse cem reais eu apostava os cem reais que o Temer cai e embolsava a grana feliz ano que vem. 

Para explicar, vamos começar do começo. Não, não de agosto. Nem de março. Mais do começo. Pensa em século XV, mais ou menos. Florença, no local que hoje convencionamos chamar de Itália. Lá viveu e trabalhou um dos grandes mestres que tive e dos maiores pensadores da humanidade: Nicolau Maquiavel. (Obs.: Eu não brinco quando digo o quanto admiro o fiorentino, eu tenho um busto dele no meu quarto.) Lá ele escreveu algumas das mais influentes obras do pensamento ocidental - que são muito mal lidas, por sinal, mas isso é assunto para outro dia - entre elas o seu mais famoso ensaio: "O Príncipe". 

Basicamente, colocando de forma muito simplista, Maquiavel faz uma análise acerca do processo de formação dos principados. O caráter revolucionário da obra se dá por colocar a fundação dos Estados em um plano imanente - ou seja, originado através das ações dos homens - em oposição às teorias políticas da sua época, que a colocavam em um plano transcendental, baseado principalmente na ação divina. Mas esse também não é nosso foco. Como forma de agradar os Médici, família que governava Florença quando o livro foi escrito, Maquiavel colocou nele diversas "dicas" de como tomar e manter o poder. Um dos pontos que ele aborda é justamente a forma como se dá a chegada do governante ao poder. 

De forma muito resumida, o que ele diz é que existem duas formas de se chegar ao poder: ou você chega lá pelos seus méritos próprios - ou, como ele diria, pela sua "virtu" - ou você chega lá pelos méritos de outra pessoa, que te colocou lá. Os que chegam da primeira forma tem muito mais capacidade de permanecerem no poder através dos momentos de crise por dois motivos: além de terem as características que os levaram ao poder e que tendem a mantê-los nele, contam com a legitimidade adquirida perante os seus pares para permanecerem em seu posto. Já os que pertencem ao segundo grupo ficam eternamente presos àqueles que os colocaram no poder, eternamente com medo de serem removidos, pois não possuem nem as virtudes necessárias para a permanência do cargo e tampouco legitimidade perante seus pares (e o povo) para exercê-lo. 

Por isso, antes de continuarmos, é importante que a gente se lembre de como o Temer chegou no poder: ganhando com larga margem de votos as eleições presidenciais ainda no primeiro turno. Não, na verdade ele chegou lá com amplo apoio do Congresso depois de um processo de impeachment no mínimo controverso. Como vice de uma presidente que também não chegou lá por méritos exclusivamente dela. E já começou o mandato odiado pelo povo. 

Ah, mas Zé, ele já não tem a confiança do Congresso? Bom, mais ou menos. Não custa lembrar que a Dilma revoltou os seus pares (e o povo brasileiro) por ter feito uma quantidade colossal de merdas enquanto presidente. O Temer entrou porque era vice, mas ninguém nunca apoiou o Temer. A bandeira sempre foi o fora Dilma e não o vem Temer. Em outras palavras: se no lugar dele fosse um sorvete de flocos na linha sucessória, nós teríamos hoje o primeiro laticínio a ocupar a presidência da República.

Bom, mas pelo menos ele não tem vice que o derrube, certo? Sim, mas contra ele pesa a Constituição Federal, que estabelece que, nos últimos dois anos do mandato, caso presidente e vice não possam ocupar o cargo deverão ser realizadas eleições indiretas. Ou seja, o presidente será escolhido pelo Congresso Nacional, o mesmo grupo que colocou o Temer lá. E olha, eles não estão nada satisfeitos.

Dois sinais recentes me chamaram muito a atenção: o primeiro foi entrevista do Caiado, do DEM, dizendo que o Temer deveria renunciar o mandato para que ocorram novas eleições. Lembrando que estamos falando de um dos principais líderes do partido que sempre foi oposição ao PT e apoiador de primeira hora do impeachment. O outro foi a decisão do Senado de barrar uma PEC que previa eleições diretas caso presidente e vice não possam assumir o caso. Me parece, no mínimo, algo feito com segundas intenções. 

Não custa lembrar que, além de já existirem dois pedidos de impeachment contra o Temer, ano que vem teremos eleições para a presidência das duas casas do Congresso, o que pode mudar o tabuleiro político e deixar o atual presidente (ainda mais) acuado. Além disso, paira ainda o pedido de cassação de chapa no TSE, presidido por Gilmar Mendes, ministro reconhecido por pautar o seu trabalho pelas suas pretensões políticas. 

Com sua base de apoio no Congresso cada vez mais instável, odiado pela população e acuado por um processo judicial, Temer vai começar 2017 com muitas dúvidas e uma verdadeira missão impossível: terminar o ano no mesmo cargo em que começou.

15 de dez. de 2016

Monografia

Banca de monografia: Como foi.

O meu orientador olhou para nós e declarou instituída a banca. Apresentei meu trabalho. Em oito dos dez minutos disponíveis. Todos ficaram bastante surpresos com a minha objetividade. A primeira avaliadora falou. Elogios, considerações. Disse que eu escrevia bem. Anotei os apontamentos dela, foram muito bons. Falou a segunda avaliadora. Mais elogios. Disse que usou os critérios de avaliação de trabalhos de pós porque o meu estava no mesmo nível. Elogiou muito o meu segundo capítulo - ela é doutora no tema dele. Disse que eu tenho uma capacidade analítica e de articulação de conceitos muito grande. Meu orientador falou por último. Elogiou muito. Disse que ficava emocionado de ver a conclusão desse projeto. Foram três anos de pesquisa, desde a iniciação científica (fui bolsista do CNPq durante a maior parte da minha graduação). Eu saio da sala. Menos de três minutos depois eu sou chamado de volta. Saiu a nota: 10. Recomendação para publicação - após a realização de uns pequenos ajustes.

Banca de monografia: Como deveria ter sido.

A mesma coisa. Só que narrada pelo Galvão Bueno. 

Sério, imagina só. 

"Bem amigos da Rede Globo, estamos aqui ao vivo aguardando o início de mais uma defesa de monografia. De um lado o Zé, do outro a banca, já perfilados no meio da sala. Já foi executado o hino nacional e estamos só esperando a autorização do orientador para dar o início a mais esse espetáculo. Foram três anos de PIBIC, minha gente. O que você acha disso, Casão? É Galvão, o Zé é um pesquisador com uma certa experiência, apesar de novo, já tem artigos publicados, foi a grande revelação do Departamento de Direito em 2014, foi premiado. Olha, vou ter que te interromper porque parece que o orientador já autorizou o início da banca. E começa a falar o Zé. E lá vai ele, apresentando o trabalho. Começou na motivação, agora está indo para as premissas fundamentais que norteiam o trabalho e aproveitou para introduzir o primeiro capítulo, já está fazendo o segundo. Impressionante como ele faz a transição rápido, essa é a defesa de monografia moderna, não é mais como era na sua época, não é Casagrande? Ih, peraí que eu falei demais e ele já está chegando ali no terceiro capítulo, olhou, limpou a marcação e partiu pra conclusão OLHA O QUE ELE FEZ OLHA O QUE ELE FEZ ele já acabou de falar tudo em oito minutos, pode isso Arnaldo? Olha, Galvão, a regra é clara: ele tem até dez minutos, ele pode apresentar em menos, mas não pode passar de dez minutos. E lá vai a avaliadora, fazendo os seus comentários. Elogiou as notas de rodapé. Rapaz, na minha época eles não liam nem o título. Ele respondeu bem, agradeceu e partiu agora a segunda avaliadora, bola dominada, la vai ela. Disse que vai ser mais rigorosa porque o trabalho ficou muito acima da média. Haja coração, meus amigos, haja coração. Galvão, parece que levantaram a bandeirinha aqui e teve impedimento. Ele confundiu o conceito de transcendência, de Spinoza, com o de transcendental, do Kant. Mas já entrou o orientador aqui pra dizer que foi um cochilo dos dois e autorizou a seguir o lance. E parece que vai ter pergunta, vai ter pergunta. Aí meu Deus do Céu, vai ter que explicitar um conceito que ele abordou no último parágrafo, já no finalzinho. E agora partiu o orientador, elogiou a capacidade do trabalho do orientando, reconheceu o momento difícil e encerrou a defesa dando os parabéns. O Zé foi retirado de sala. A banca delibera a nota, olha a tensão ali, ele andando de um lado para o outro do corredor. Aí, aí, aí... Haja coração para aguentar um momento como esse. E já foi chamado de volta. Sentou. Agora é só ele e a banca. E lá vai o orientador, tomando a palavra. Só ele e o Zé. Vai que é tua, Zé! Vai que é tua, Zé! É o Brasil inteiro com você! E lá vai o orientador, ele toma distância da bola. Partiu, vai correndo, vai anunciar a nota. Vai que é tua, Zé! Vai que é tua, Zé. E lá vai ele, na bola! DEFEEEENDEEEEEUUUUU DEFEEEENDEEEEEEUUUU ACABOU ACABOU ACABOU ACABOU É TETRAAAAA É TETRAAAAAA Está formado o Zé, com nota 10 e trabalho indicado para publicação (começa a tocar o tema da vitória). Que emocionante, meus amigos! É o Zé sendo campeão!! Comemora com a torcida, abraça muito o resto do time. E vai ter banho de Gatorade no orientador, vai ter banho de Gatorade no orientador. Nosso repórter Tino Marcos acompanha a festa aí na beira do gramado, vamos falar com ele agora. E aí, Tino, como tá essa festa aí? Olha, Galvão, o clima é de muita alegria, muita felicidade aqui pela conquista. Os jogadores se abraçando aqui na beira do campo e eu to indo agora falar com ele, o craque desse time. Ô Zé, vem cá, dá uma palavrinha pra câmera aqui, conta pra gente, como foi defender essa monografia?

Zé (ofegante): olha, foi muita emoção, muita disputa, foi muito duro, monografia é isso mesmo. A gente tava confiante. Fizemos tudo que o orientador mandou e graças a Deus conseguimos sair daqui com os dez pontos. Agora cê me dá licença que eu to indo beber e só acabo quando o Lula for preso: amanhã!"

29 de nov. de 2016

Quando gigantes andaram sobre a terra


Mais que um homem. Mais que os onze em campo. Mais que os 20 mil na arquibancada. Mais que uma nação. Mais que um mundo inteiro. 

Uma muralha.

O ritmo sincopado da torcida é contagiante. O estádio pulsa como se fosse um organismo vivo. Todos juntos sob um mesmo objetivo. Uma mesma bandeira. Um mesmo gol. Um mesmo homem. Um pé.

48 minutos. Um único detalhe entre vida e morte. Um pé que vale por um sonho. Uma explosão. O estádio em êxtase. Realidade e fantasia se fundem em um único instante, que parece durar uma eternidade. Tudo passa a ser possível. Seremos campeões. 

Nos vestiários a festa emula a das arquibancadas. Contagiante. Corpos pulsando no mesmo ritmo. Gritando. Cantando. Exultando. Uma única voz se ouve: Estamos na final!

 Fizemos história.

O ritmo sincopado da aeronave é angustiante. O avião treme. O medo se espalha rapidamente. Venceremos? Ouço gritos. O que aconteceu?

Trinta mil pés de altitude. 

Vinte mil pés de altitude.

Quinze mil pés de altitude. 

Dez mil pés de altitude.

Cinco mil pés de altitude.

Um pé.

Um detalhe de vida ou morte. 

Eles dizem que quando você morre, passa um filme da sua vida pela cabeça. Devem ter se enganado. Como saberiam? Alguém já voltou para dizer como é? Vejo o mais importante: meus pais, minha família. Vejo a Chape. A torcida. A glória escorrendo pelos dedos. Um pé. Ouço gritos em uníssono. Por favor, não me odeiem. 

O pulsar ritmado do avião é substituído por outro. Os aparelhos batem e apitam no mesmo ritmo. Um pé. Um pé. Um pé. Um pé. Um pé.

Foi culpa minha? Foi culpa de alguém? Porque a gente? Porque hoje?

Não ouço mais nada. Não vejo mais nada. Não sinto mais nada.

Só a dor. E o peso.

Ouço um apito mais longo e mais alto que os outros.

O jogo acabou.

Somos História.

26 de nov. de 2016

Tá vendo aquele cara ali?

Que cara?

Aquele. Ali. O grandão.

Forte?

Isso. Com a camisa regata

Verde listrada?

Isso. Boné da Mocidade, chinelo

Aquela cicatriz escrota no meio da testa?

Isso, aquele grandão, fortão.

Ah. Não, não to vendo não.

Então, imagina o Carlinhos

Da Jane?

Da Jane.

Ahã.

Só que mais alto

Ahã.

Mais forte

Ahã.

Com camisa regata verde listrada

Ahã.

Boné da Mocidade

Ahã.

Chinelo

Ahã.

Cicatriz escrota no meio da testa

Ah! Igual aquele grandão fortão ali?

Isso! Agora imagina que esse cara ta puto com você.

Porra, mas porque comigo?

Sei lá, pergunta pra ele porra, tu é chato pra caralho também.

Tá, continua.

Então, ele tá puto contigo.

Porra, porque ele não fica puto com você?

Cala a boca, imbecil, e me deixa terminar!

E eu que sou chato né...

Então, ele tá puto com você

Ahã (meio contrariado)

E ele ta vindo na sua direção

Ahã.

Puto.

Porque?

Porque você não deixou essa história progredir e forçou um uso de metalinguagem.

Porra, metalinguagem é escroto demais.

Entendeu porque ele tá puto?

Saquei.

Então, imagina que ele tá puto com você

Por causa da metalinguagem?

Por causa da metalinguagem.

Ok, continua.

Ele tá puto com você, vindo na sua direção. Com uma maçã.

Porra, calma aí, porque uma maçã?

Maçãs são muito nutritivas.

Cara, mas com tanta coisa no mundo, porque uma maçã? Porque não uma pedra, sei lá?

Já tentou comer uma pedra?

Porra, ele vai me bater ou vai me levar pra jantar?

Ele pode precisar de energia.

Ok.

Então, imaginou.

Imaginei, porque?

Porque ele tá vindo aqui agora, corre!

9 de jul. de 2014

Uma derrota em sete movimentos

I.
Escrevo este texto no calor do momento. Talvez calor não seja a palavra exata para definir a apatia que impera, mas o importante é que fique bem claro que eu não entendi o que aconteceu e, possivelmente, jamais entenderei. 

II.
"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são, cada uma a sua maneira."

Quando escreveu assim a primeira linha de seu célebre romance Anna Karenina, Tolstói não sabia que seria essa justamente essa que o eternizaria. Trata-se, provavelmente, do início de livro mais famoso da história da literatura mundial. Tolstói, igualmente, desconhecia que, um dia, o Brasil perderia para a Alemanha de 7 a 1, em um curioso esporte inventado na Inglaterra e que em breve se tornaria febre mundial.

Hoje, nós somos 200 milhões de indivíduos profundamente infelizes, cada a um a sua maneira. Sofremos a pior derrota de nossa história naquilo que, em tese, deveríamos ser melhores que todo mundo. Quanto maior a altura, maior o tombo. 

Na Copa das Copas, nós vimos a goleada das goleadas, a humilhação das humilhações, a mãe de todas as eliminações. O que dói mais é que poderia ter sido pior, mas os alemães não fizeram mais porque não quiseram. Perdemos de 7x1 por pena.

Para muitos, o humor foi uma válvula de escape. Confesso que fui desses. Busquei ao máximo rir para não chorar. 

Muitos ainda buscam explicações. Não existem. Desistam. Não vamos descobrir nunca o que aconteceu. O fato é que fomos massacrados. 

Vivamos com isso.

III.
Quando eu era criança, meu avô me contou, mais de uma vez, a história do Maracanazzo. Ele foi um dos milhares de cariocas que estavam no Maracanã naquela noite. Ouvi essa história mais de uma vez. De como ele quebrou seus óculos no trem, de como ele se espremeu no estádio o jogo inteiro, daquele cara alto que não deixava ele ver o jogo direito e, por fim, daquele silêncio, o maior silêncio do mundo, o mais triste, o mais alto, o mais longo. Um silêncio que durou mais de 50 anos.

Ouvia essa história atentamente, com respeito, fazendo referência à dor por ele sentida. Aliás, a maior sentida pela nação até então. Afinal, estava ouvindo a História. Amanhã, se encontrá-lo, poderei dizer que a minha geração ultrapassou a dele. O Mineiraschensfort ou qualquer que seja o nome dado é muito maior que o Maracanazzo.

Ambos os jogos podem ser considerados como pontos de inflexão. Entretanto, enquanto a derrota para o Uruguai representou uma nova fundação, sobre a qual o futebol brasileiro ressurgiu de forma magnífica em 1958, a derrota para a Alemanha foi justamente o contrário: hoje, nós decretamos a falência do futebol brasileiro.

É verdade, faz tempo que o futebol brasileiro já não encanta mais ninguém. Eu mesmo só conheci aquela escola de meias habilidosos, passes magníficos e dribles desconcertantes através de histórias de meu pai, meus tios, meu avô. Nosso futebol era quase como uma lenda mitológica: passado de pai para filho, de forma oral, através das gerações. Desse futebol, vi apenas lampejos.

Mas, até hoje, ainda nos respeitavam. Alguém ainda olhava para essa camisa amarela e pensava: "fodeu, é o Brasil." Ainda conseguíamos tirar uma onda de "país do futebol". Depois desses 7x1, as coisas nunca mais serão as mesmas. A goleada escancarou a nossa crise para o mundo.

Simbólico os aplausos no Mineirão após o sétimo gol. Foi muito mais que um reconhecimento da superioridade alemã. Foi quase que um rito de passagem. Ali, a torcida brasileira reconheceu um valor mais alto que se levantava, imponente. 

IV.
Na terra da antropofagia, a Alemanha engoliu o Brasil. 

Segundo consta, habitavam aqui tribos antropofágicas, que comiam a carne de seus inimigos derrotados com o intuito de absorverem suas virtudes. Esse hábito também virou um dos motes do movimento modernista brasileiro, que virou do avesso a literatura e a arte no país. O que me espanta é que, apesar disso, os alemães passaram quase um mês engolindo a gente e ninguém percebeu.

Começou logo na preparação. Qual o lugar escolhido por eles? A Bahia. Tem lugar mais brasileiro que a Bahia? Não satisfeitos, eles ainda tocaram o zaralho por lá: dançaram com os índios, fizeram o lepo-lepo, cantaram o hino do Bahia… Até camisa do Flamengo os caras trouxeram.

O meio-campo alemão jogou como me diziam que jogavam os brasileiros. Fez o que quis, trocou passes sem errar e com velocidade estonteante, muita movimentação e, ocasionalmente, lances plásticos. A Alemanha já era mais o Brasil na Copa que o próprio Brasil. 

O massacre foi só a etapa final desse processo. 

V.
Quando meu neto me perguntar, vou dizer que, apesar de ter apostado no Brasil no bolão, eu comecei a duvidar no momento que vi a escalação do Bernard como titular. Para não ficar só na lorota e não parecer um mero pessimista de última hora, mostrarei a profética mensagem que enviei a um amigo meu assim que descobri isso, por volta de vinte minutos antes do jogo: medo do Bernard nesse time.

A culpa, obviamente, não foi dele. Mas, ao escalar ele, Felipão nada fez para cobrir o buraco negro que existia no meio de campo do canarinho, latifúndio generoso nos quais os alemães acharam espaço para fazer o que bem entendessem durante o jogo todo. Terra em que se plantando tudo dá.

Direi ao meu filho que o Brasil foi melhor na partida. Mas farei a seguinte ressalva: a partida só durou dez minutos, tempo de Müller fazer o primeiro gol tedesco e abrir a porteira. Até lá, o Brasil até tentou fazer uma partida digna e conseguia equilibrar o jogo, apesar de partir pra cima ao caralho e deixar muitos espaços livres pro envolvente toque de bola germânico.

Dez minutos depois, em um curto intervalo de tempo, viriam os outros gols. Não acreditei quando vi o gol de Klose. Até ali, ainda acreditava numa virada, ainda mais com a torcida gritando como ainda não havia nesta Copa. Mas, depois que vi os alemães fazendo o que queriam na nossa defesa, confesso que fiquei desesperançado. Um pouco de mim, todavia, ainda gritava internamente, junto com a torcida: eu acredito. 

Aí veio o terceiro gol. Vi Lahm correndo tranqüilo, cruzando para Müller, que não alcança e acaba deixando a bola sobrar para o Kroos finalizar, com força e tranquilidade, contra a meta de Júlio César. Ali, eu desabei. Levantei do sofá na hora. Não queria mais ver o jogo. Fui para o meu quarto com meus olhos marejados, uma sensação de derrota reforçada pelas inúmeras mensagens de amigos também incrédulos com o que acontecia. Ali, eu me reergui. Lembrei do Vasco, da virada do século. Pensei: esse time também consegue. Voltei. E, ao mesmo tempo que eu entrava na sala, Khedira entrava na área, após receber passe preciso de Kroos que havia roubado a bola de um displicente Fernandinho, fazer a devolução e bola na rede. 4x0.

Ali eu já não sentia mais nada. Estava atordoado. Diria que anestesiado pela dor. O resto do jogo se passou, para mim, como se num pesadelo. Eu me sentia descolado da realidade. Era como se eu não estivesse lá, assistindo a festa alemã no nosso quintal. E, a cada ataque germânico, eu só conseguia pensar: de novo não, já chega. Acredito que éramos 200 milhões que nos sentíamos perdidos, inclusive os 11 em campo, a julgar pelo passei alemão, perante o qual a seleção permaneceu atônita.

Depois do jogo, aquele mesmo amigo meu mandou mensagem dizendo que "está muito triste hoje". Minha resposta foi: vai piorar. Hoje não entendemos. Amanhã, vamos entender melhor. Daqui a uma semana, melhor ainda. Sete dias: um por gol. E assim progressivamente. A Alemanha abriu a ferida aberta pelo Uruguai em 1950 e a remexeu de tudo quanto é jeito.

Por hoje, ela destina sem doer. 

VI.
Dom Sebastião assumiu o trono português aos 14 anos, em 1568. Dez anos depois, seria derrotado na batalha Alcácer Quibir e desapareceria. Durante séculos, sua figura permaneceu como uma lenda em Portugal. Logo depois, o trono lusitano passaria para Filipe, da Espanha, tornando o país submisso aos seus odiados vizinhos. Eventualmente, eles restituíram sua independência, mas o país nunca mais foi o mesmo. Passou de potência a figurante, papel que desempenha até hoje.Os portugueses, no entanto,  esperaram ansiosamente pelo retorno de seu rei perdido, como que o de um messias, que traria o país de volta à sua era de ouro. 

Estão esperando até hoje.

Neymar assumiu o trono na seleção brasileira aos 18 anos. Ferido em batalha pelo colombiano Zuñiga, desapareceu na reta final da Copa, deixando muitos torcedores e mesmo os próprios jogadores e membros da comissão técnica órfãos. Neymar virou o Dom Sebastião da nação. Já se ouvem aqui e ali torcedores dizendo que "se ele tivesse jogado, não teria sido assim."

Teria sim. Nós sabemos disso. Sabemos até que o time sentiu mais falta de Thiago Silva do que do seu camisa 10. O problema não estava no ataque. Estava no meio campo que cedia espaços generosos e na defesa que corria feito barata tonta. O problema foi aquele time perdido. O problema foi tanta coisa que eu confesso nem saber mais qual foi. 

Mas não foi Neymar.

VII.
Moro no Rio. Sou torcedor do Vasco desde a infância. Meu time, além de sua história incrível,  teve um momento brilhante na década de 90, montando alguns dos melhores times que já desfilaram nos relvados brasileiros. De quando passei a acompanhar futebol assiduamente para cá, no entanto, o time tem amargado as suas piores temporadas de sempre. Os títulos escassearam. Os rebaixamentos, multiplicaram-se.

Por influência da família, tenho grande carinho pelo Bangu, vice-campeão brasileiro de 1985, disputou a Libertadores em 1986. Casa de grandes jogadores, o principal deles Domingos da Guia, considerado até hoje um dos maiores zagueiros da história do futebol brasileiro e da seleção. Apenas recentemente voltou a disputar a série A do campeonato carioca, na qual empilha campanhas medíocres. 

O Brasil passou 24 anos sem ganhar a Copa. Em 1994, foi campeão. 1998, foi vice. 2002, campeão novamente, com Ronaldo, ainda fenômeno, no auge e sobrando em campo. Desde então, acumula eliminações nas quartas e, hoje, sofreu a maior humilhação de sua história. 

Talvez eu devesse considerar mudar de esporte.