27 de nov de 2010

Vôo dos abutres

Ele andava pelas ruas escuras. Cabisbaixo. Perdido. Sem direção. Não sabia aonde ia, o que queria, o que faria, só sabia que seguir sempre em frente era a sua solução, aonde quer que isto o levasse.

No meio do caminho tinha uma lata. A lata foi parar no meio da rua, para aprender a não se meter com a tristeza dos outros.

E ele andava.

E cada passo era uma lágrima.

Alguns litros depois, ele havia chegado. Chegado aonde não queria estar, aonde sabia que já havia estado, chegado aonde haveria de chegar. E tinha uma cama. E tinha um cubículo fétido. O cheiro da podridão era forte em suas narinas. O cheiro da devassidão estava sempre presente. O forte odor do fracasso.

E no meio desse cubículo, havia uma cama. E na cama havia ele. E nele havia dor, sofrimento, choro. E ele não sabia quanto mais agüentava.

Os pesadelos.

Amanheceu. O sol entrava através de frestas minúsculas quase imperceptível.

La fora, as buzinas e a fumaça substituíam os sons e aromas de sua infância. O calor do movimentado centro da grande cidade era infernal.

Batidas na porta. Repetidas na mesma freqüência. Por que alguém tinha que pagar para viver de uma maneira tão miserável?

Ele se levantou. Suas costas doíam de novo. Ele implorou. Trocou sua dignidade por uma semana naquele inferno. De novo.

O bafo quente da manhã o acolheu enquanto procurava um banheiro. Sua dignidade só dava para a cama.

Resolvidas suas questões internas, era a vez de ser acolhido pela melancolia da rotina. A mesmice o aguardava sorridente.

Perdido em sua esquina, atravessado por um mar de ternos. Manequins insensíveis. Sobras. Nada que desse para comer. Ou dormir.

Sobras, sobras, sobras. Malditas pessoas, malditas esmolas. Sorriso. Sobras. Deus-lhe pague. Esmolas. Sorriso. Fome.

E caminhava sem rumo à noite, pelas ruas vazias e becos mal iluminados. A essa hora da noite, a cidade em nada lembrava sua efervescência matinal.

As ruas eram do submundo.

Prostitutas, travestis, mendigos, alcoólatras, ele. A base da cadeia alimentar. Nem as putas o procuravam.

Exceto, é claro, quando ele destinava seu escasso dinheiro aos prazeres carnais. Mas o dinheiro não dava nem para o começo. E ele ficava na mão.

Tosse. Tosse Tosse. Frio. Sangue. Tosse.

E ele seguia em seu caminho, sempre andando para frente, o que quer que isso significasse.

Do alto, ele via toda a cidade. As luzes dos prédios. A luz das estrelas. A luz da felicidade dos outros, que ele agora planejava alcançar.

Seguia em frente. Sempre em frente. A brisa fresca soprava em seu rosto e envolvia seu corpo. Ele flutuava com a delicadeza de uma bailarina. Cobria a cidade com suas risadas. Há quantos anos que seu sorriso não era tão sincero. E suas gargalhadas cobriam de beijos e abraços a cidade que tanto o maltratou, numa sinfonia final de perdão.

E caiu suavemente, deitado sobre o que agora era seu novo leito. Dormiu com os anjos. Dormiu sorrindo e sonhando sonhos de esperança.

E dormiu embalado nas asas dos anjos.

Os raios de sol beijavam seus cabelos delicadamente. Era hora de acordar. Por um momento, ele voltou para os campos de sua infância. Um bocejo. Seus olhos se abrem lentamente.

Ele olha para o céu. As silhuetas, tão familiares, dos grandes prédios lhe dão boas-vindas. Gigantes monstruosos, com seus sorrisos diabólicos.

Ele ficou pálido. Ele suou frio. Ele estava frio. Ele suou pálido.

Seus olhos iam e vinham rapidamente, contemplando o cenário que tomava forma ao seu redor.

Sua vitória virara fumaça em um piscar de olhos, enquanto reconhecia os prédios. A cidade destilava seu ódio em um riso final de escárnio incontido.

Até mesmo ali fora derrotado. Nem sobre sua vida ele possuía direitos. Um fracasso. O último dos fracassos de sua vida fracassada. Ou o primeiro.

Ele estava boquiaberto. Ele estava perplexo. Ele estava atônito. Ele estava estupefato.

Seus olhos voavam rapidamente de esquina a esquina. Ele não podia... Ele não queria...

Ele saiu correndo, tão rápido quanto possível. Lágrimas em seus olhos.

Correu muitos litros.

Ele se cansou. Continuou correndo. Ele se cansou. Continuou correndo. Mais rápido.

Ele parou. Ele foi parado.

Não as gangues. Não de novo.

soco chute chute soco dor mais socos e chutes

Mais dor.

Semi-consciente, foi carregado para longe. E seus olhos lentamente se fecharam.



A MORTE NÂO ACABA





Fim

26 de nov de 2010

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