11 de dez de 2009

PUF!

"Merda"

Foi a primeira coisa que veio a sua cabeça quando ele olhou para o relógio. As vezes, se atrasar era charmoso. Infelizmente, não era o caso. Essa não era uma festinha qualquer. Era uma entrevista de emprego. E um atraso definitivamente não seria charmoso.

Ele saiu varado pela Rio Branco, tão rápido quanto um homem de terno consegue ir em pleno Centro ao meio-dia. Ou seja, quase nada.

No começo, ausência das pessoas lhe incomodava. Mas agora, ele já não ligava. Tinha se acostumado a ser este estranho ser híbrido. Meio ilha, meio humano. Um pedaço de corpo cercado de pessoas por todos os lados.

Ele tentou apertar o passo. Infelizmente, a senhora que estava a sua frente não. No instante da colisão, nada. Nem mesmo sua mãe fora ofendida(o que é bem comum na hora do rush). E não foi porque ele atropelou uma velinha inocente. Até porque a velinha não estava mais lá. De repente, ela evaporou. Era como se fosse feita de névoa.

As outras pessoas continuaram seus caminhos, indiferentes ao desespero do pobre transeunte. Além de atrasado, tinha evaporado uma velinha. Aliás, como se evapora uma velinha?

Ele tentou chamar alguém. Ninguém lhe deu ouvidos."Que ótimo", pensou, "além de cegos são surdos".

E tentou passar para o contato físico. Para sua surpresa, o senhor careca que estava passando sumiu também. E nesse exato instante, ele se sentiu sozinho. Olhou ao seu redor. Uma avenida cheia de corpos mais sem nenhum sentimento. Uma avenida fria. Uma avenida cruel.

E, quando ele achava que não podia piorar, foi tragado pela escuridão. Ele estava só. O escuro era palpável. Ele não sabia se chorava ou gritava desesperado. Ficou com a segunda opção.

E acordou gritando, encharcado de suor, deitado confortavelmente em sua cama.

Fora só um sonho ruim.