27 de ago de 2013

Todos os paumari morrem de feitiçaria

I. 

No meio da sala de aula, a professora - uma antropóloga - fala para turma sobre uma tribo na qual ela tem feito pesquisas nos últimos vinte anos. Nesse momento, ela explica sobre um elemento central na cultura desse povo: a feitiçaria. Ao dissertar sobre o papel que os feitiços dos xamãs possuem e o que eles podem causar, ela cita, como exemplo, que quando uma pessoa fica doente, o xamã chupa o mal espirito para fora dela. Nesse momento, ela é interrompida com a seguinte pergunta:

"A feitiçaria possui algum efeito eficaz?"

"Como?"

"Mas essa feitiçaria faz alguma coisa?"

Ela responde, como se fosse a coisa mais séria do mundo:

"Sim. Feitiçaria mata."

E o motivo pelo qual ela respondeu como se fosse a coisa mais séria do mundo é porque a feitiçaria é A coisa mais séria do mundo.

Feitiçaria mata.

II.
É muito fácil criticar essa aluna agora. Ainda durante a aula sua atitude fora contestada por uma outra aluna. 

Muito mais difícil é que nos lembremos que todos nós somos essa senhora que acha que feitiçaria é inútil.

Todos nós, em alguma medida, nos colocamos no centro do mundo. Nunca olhamos pelos olhos do outro. 

III.
Um ditado muito antigo e sempre citado como norma padrão de cortesia é:"trate os outros como gostaria de ser tratado". A primeira vista, é lindo. Seja gentil, cortês e mais meia dúzia de outras coisas. Mas eu não consigo pensar em uma frase mais egocêntrica que tenha sido proferida antes ou depois.

Quando foi que você virou o termômetro universal do bem estar? Quem foi que te promoveu a medida universal dos sentimentos alheios?

Não trate os outros como você gostaria de ser tratado. Trate os outros como ELES gostariam de ser tratados. 

Claro, isso é difícil. Você primeiro precisa descer do Olimpo e se misturar com os meros mortais. Conhece-los, se misturar com eles. Entende-los

Mas é claro que tudo isso leva tempo.

E muito mais fácil é sair presumindo um monte de coisas e fazer o que quiser.

Epílogo
"Mas professora, essa feitiçaria não poderia ser um vírus?"

"Olha só, não poderia 

"Mas a minha pergunta foi pertinente."

"Eu não estou dizendo que não foi. É só que você está presumindo a existência do elemento vírus, que eles não conhecem. Os paumari não morrem de morte natural. Todos os paumari morrem de feitiçaria."