18 de mai de 2013

Por que o Samuel L. Jackson só faz papel de negro?

Antes de entrar no assunto do título, preciso fazer uma consideração inicial: muitos atores ficam marcados por um determinado papel em sua carreira. Aliás, em certos casos, a palavra mais correta seria presos. Desta forma, o Tom Hanks sempre é um cara bem intencionado e meio alheio ao mundo, o Jim Carrey faz caretas, a Dakota Phanning sempre é aquela criança assustadora de filmes de terror e o Samuel L. Jackson sempre é... negro. (WHAT?)

"Say what again mother fucker"
Calma gente, eu explico. Vai demorar, mas eu explico. Eu me pus a pensar muito sobre isso outro dia, quando atualmente me perguntaram o porque do Samuel L. Jackson sempre fazer papel de negro nos filmes em que participa. Minha reação não vem ao caso, importante mesmo são os pensamentos por ela desencadeados.

Para dar prosseguimento ao texto, é necessário lembrar que o racismo está intrinsecamente ligado ao conceito de normatividade. A partir do momento que determinado padrão estético é considerado como o normal, os demais passam a ficar restritos àquela estranha zona cinzenta do "outro", o que explica, inclusive, porque os japoneses sempre desenham personagens ocidentais (spoiler alert: eles não desenham).

Na nossa sociedade, o padrão normativo estabelecido é o homem, branco e heterossexual. Todos os que não se encaixam neste "tipo ideal" são postos para debaixo da sarjeta e sofrem, em algum grau, com o preconceito e limitações impostas pela sociedade em virtude desta sua condição.

O que nos leva a pergunta do título. Não darei a insossa e esperada resposta objetiva, até porque a graça dela é justamente a reflexão que ela nos propõe. O autor da pergunta, obviamente, viu o negro como o papel marcante na carreira Samuel L. Jackson justamente porque ele não está inserido no padrão normativo na nossa sociedade.

A cor negra se destaca tanto no espectro social brasileiro que, aos olhos de meu interlocutor, se torna um fator bom o bastante para definir a carreira inteira de Samuel L. Jackson - ainda que, a meu ver, o adjetivo mais preciso para descreve-lo seja "fodão".

Isso é racismo. Racista não é só o cara que é contra casamentos entre brancos e negros, o skinhead que espanca índios na rua ou aquele seu amigo que anda com capuz branco e tocha na mão de noite. Racistas somos todos nós - sim, eu e você inclusos, meu caro leitor - que interiorizamos e perpetuamos esse sistema perverso que nada mais fez do que humilhar e ultrajar os negros mundo afora.