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8 de abr. de 2017

Minha égua.

Acho que foi Machado de Assis quem comparou sua imaginação a uma égua. Qualquer brisa lhe dava um potro e lá ia ela galopando pelas pradarias afora. Não consigo pensar em outra definição melhor de imaginação e era só nisso que eu pensava enquanto eu fitava aquela mulher do outro lado do metrô. 

O motivo era simples: ela me lembrava alguém que eu conhecia. Eu sempre tive uma memória muito boa para as feições das pessoas, embora não tão boa assim para os seus nomes. E enquanto eu mirava aquela mulher ali, em pé, no fundo do metrô, eu tentava me lembrar quem ela era. 

Minhas reminiscências me levaram a uma caloura minha. Pegamos algumas matérias juntos no início do curso, porque ela havia adiantado as matérias de Direito Penal. Achei estranho ela não ter me reconhecido, já que sempre nos falávamos e eu percebi que fazia muito tempo que não a via. Aí eu me lembrei o motivo: ela morreu em um acidente de carro com o namorado quando estávamos nos períodos intermediários do curso. 

Corta. Volta para o primeiro parágrafo. 

Aí entra a imaginação. 

Na minha mente começaram a surgir várias teorias ligando a mulher desconhecida a minha falecida caloura. Eram irmãs? Gêmeas separadas? Ela tinha voltado dos mortos? Ela estava no Nepal com Élvis esse tempo todo? Eventualmente aquela estranha se tornou uma mãe desesperançosa buscando superar a dor da perda de sua filha. 

Eventualmente eu desliguei meus pensamentos dessa mulher e passei a refletir sobre outras coisas. Vocês ficariam surpresos se soubesse o que é capaz de passar pela minha cabeça em uma hora nos trilhos do metrô. 

Vi um lugar vazio, num daqueles bancos virados para o corredor e sentei. Duas estações depois, a mulher sentou exatamente de frente para mim. O que, naturalmente, fez com a minha imaginação fosse novamente a galope. 

Não que ela parecesse se importar, já que ela estava muito absorta digitando em seu celular. Presumivelmente, no WhatsApp. Como o sinal dela funciona no metrô, jamais entenderei. Eis que, no meio de um fluxo incessante de mensagens, ela subitamente para e começa a encarar o ar com a boca aberta como se fosse um Peixe Lua. 


GLUB GLUB GLUB

Em questão de segundos, ela passou a movimentar sua cabeça freneticamente, direcionando o seu olhar para diferentes direções, sem parar em um ponto fixo. Algo que, curiosamente, um Peixe Lua é incapaz de fazer, uma vez que desprovido de pescoço. Aquilo me chamou muita atenção, naturalmente. Como se o seu aspecto insólito já não fosse o suficiente, ainda havia toda uma carga imaginativa e emocional por trás que rapidamente pôs a minha égua a galopar a toda velocidade pelos verdejantes campos da estação Siqueira Campos. 

Enquanto a fitava, intensamente, ia pensando o que poderia ter causado aquela cara de espanto. Algo grave? Algo bom demais para ser verdade? Sua filha encontrada? Outra filha perdida? A partir daí passei a me desprender dela e comecei a me aprofundar nas diferentes dimensões do sofrimento humano e na  eterna miséria que é a vida. Neste momento eu percebi que ela também me olhava, séria, de volta. Fiquei constrangido.

Veja bem, é comum que eu me perca em meio aos meus pensamentos. Principalmente nessas situações que eu não tenho nada para fazer. Em geral, nessas horas você pode ver meu olhar, sério e meio opaco, direcionado intensamente para um ponto fixo, em geral durante longos períodos de tempo. Pode ser qualquer coisa: um sapato, uma placa, as luzes de uma pista de dança (sim, já aconteceu mais de uma vez e, sim, eu parei subitamente de dançar em todas as ocasiões) enfim, qualquer coisa. 

O ponto fixo, no caso, era a mulher. 

E, enquanto nos encarávamos, ela séria e eu constrangido, vi que o trem se aproximava de mais uma estação e fiz o que qualquer um faria: levantei sorrateiramente, saí do trem e troquei de vagão para evitar uma situação potencialmente constrangedora, aproveitando para jogar o copo vazio de milk shake que estava na minha mão desde o centro no lixo. 

Obviamente não me desculpei com a mulher pelo transtorno causado, embora eu sinta que devesse.

Ela não entenderia.

11 de fev. de 2017

Desabafo de um carioca

Os últimos dias tem dado muito material para pensar. 

Na verdade, os últimos anos tem sido assim. Eu lembro de um professor de história que tive no colégio e que costumava dizer que certos anos eram, nas palavras dele, "cabalísticos", anos em que todos os acontecimentos são grandiosos, por uma perspectiva histórica, e eventos que moldam gerações se sucedem com uma velocidade estonteante. Eu tenho certeza que estes anos que vivemos serão, no futuro, lembrados assim.

Em outras palavras, nós somos o David Luiz olhando o Khedira tabelar na área sem entender nada.

E essa foi mais uma semana cheia e nada foi mais chocante do que a greve da PM no Espírito Santo. Ou, como eu gosto de chamá-la, o absurdo de achar que um salário atrasado vale mais do que 100 vidas. Não vou me alongar nesse assunto, mas essa greve só escancara tudo que sabíamos que estava errado com a PM.

O que mais me choca é o quão rápido nós passamos da civilização à barbárie. Não tem uma semana e, segundo relato confiável de uma amiga que mora lá, os supermercados estão fechados, quem não estocou comida não tem mais o que comer e as pessoas estão trancadas em suas casas. 

Em uma semana.

Sem a PM. 

Pensem no que a PM representa como instituição e na qualidade habitual do seu trabalho e você vai dimensionar o quão absurdo,  ridículo e absolutamente surreal é isso ter acontecido sem uma instituição pífia e violenta como a PM e de forma tão rápida.

É de cair o cu da bunda.

Isso me atingiu de forma muito forte por alguns motivos.

Primeiro, eu sou humano e tenho empatia. Segundo, eu ainda tenho alguns amigos que moram lá. Terceiro, rolaram boatos de que teria greve igual aqui no Rio. Hoje a gente tá rindo do áudio do Peixoto, mas não tinha uma alma viva sem medo na noite de quinta-feira e nenhum carioca saiu de casa antes de checar facebook, twitter, TV, jornais e ligar para amigos perguntando se estava tudo bem.

Mas o principal eu ainda não falei: como carioca, eu sei muito bem o que é conviver com a decadência. Tem pelo menos uns 100 anos que a gente lida com isso diariamente. E o que eu vi no Espírito Santo essa semana me assustou não só por vislumbrar isso num futuro imediato - através da ameaça de greve igual aqui - mas também porque eu consigo ver isso no nosso futuro. 

Antes de continuar, eu queria perguntar uma coisa: você lembra do Robocop? Isso, aquele policial robô dos anos 80. Não, não vamos falar daquele remake horrível dirigido pelo Padilha, vamos focar no original que era melhor. Se você lembrou do filme, é bem provável que você se lembre do buraco negro no qual ele se passava: Detroit. Outrora uma das grandes potências do país e coração da indústria automobilística, ostentando alguns dos maiores padrões de vida dos Estados Unidos, hoje em dia a cidade não é sequer uma pálida sombra daquilo que fora.

E essa decadência não é novidade. Já era assim na época do Robocop. O que rolou foi o seguinte: com a derrocada da indústria norte-americana e as mudanças no mercado, com fábricas saindo cada vez mais do país em busca de mão de obra barata, a situação em Detroit rapidamente degringolou. As pessoas saíram da cidade em massa, ao ponto de hoje existir um déficit habitacional. Dentre as grandes cidades dos EUA, é a que possui os maiores índices de violência.

O que eu quero dizer é que a decadência é possível.

E, em nosso caso, provável.

Vamos olhar para como o Rio estava no começo do século passado: capital da República, centro econômico e cultural do país. Esse foi nosso auge. Depois disso, foi só decadência. 

A capital passou para Brasília. São Paulo rapidamente ganhou a primazia econômica e vem se firmando de forma cada vez mais agressiva no cenário cultural nacional. Acho que o Rio só não caiu na irrelevância ainda porque a Globo é daqui. Quanto mais a cidade aguenta?

Olho para o Rio hoje e vejo uma cidade com índices irreais de violência. Tiroteios, assaltos e outras coisas. Serviços péssimos. Engarrafamentos colossais. Nenhuma qualidade de vida. Eu olho para o Rio e vejo um buraco enorme na economia, um estado falido e uma população desesperançosa. 

É assim que começa.

Quanto tempo para as pessoas começarem a querer sair daqui? Cada vez mais amigos meus - e eu incluso - dizem que não vislumbram futuro aqui. Mais importante: quanto tempo até as pessoas que investem na cidade decidirem que aqui não é mais um local bom para seus negócios. O que vem depois? Desemprego? Decadência? Detroit?

Não sei e nem tenho como saber. Isso é algo que ninguém pode prever. E por mais que muitos procurem se manter otimistas, confesso que a cada dia que se passa eu me convenço que a única saída do Rio é mesmo o Galeão.

4 de fev. de 2017

Democracia americana

Eu tenho pensado muito esses dias. 

O que não chega a ser exatamente uma novidade. Eu penso muito. Eu sempre pensei muito. Poderia ser facilmente descrito como um cara analítico, ao ponto de às vezes dar mais importância às minhas elucubrações e conjecturas teóricas do que aos próprios fatos que as originaram. Isso quando elas se originam de fatos e não meras divagações. Acho que vocês já conseguiram entender por esse parágrafo. Ou por todas as outras coisas que eu já escrevi na vida.

Enfim, eu penso muito. Sabemos disso. A única coisa que me salva de ser um teórico insuportável (a única espécie de teórico) é que eu também tenho uma boa capacidade de sistematizar as minhas idéias, organizando-as de uma forma mais concreta ou fática. 

Enfim, tudo isso me veio à mente enquanto eu refletia sobre o conceito de democracia. Sim, eu faço isso no meu tempo livre. Eu nunca disse que era legal. Essa reflexão veio enquanto eu observava as ações do Presidente Trump em sua caótica primeira semana de governo.

O desapreço de Trump por alguns dos valores caros às democracias modernas já havia ficado claro ao longo da campanha e mesmo em outros episódios recentes, como da sua primeira conferência de imprensa após a vitória nas eleições: foi assustador ver um presidente eleito impedindo um repórter de perguntar sob gritos e acusações vagas de "fake news". A forma como ele trata os repórteres que o desagradam - aliás, como ele trata a todos que o criticam publicamente de alguma forma - deixa claro que ele é formado e pós-graduado na escola Gilmar Mendes de liberdade de expressão.

E aí eu me lembrei que o grande campeão das ideias democráticas nesse século, e no que passou, foi justamente o país que ele agora preside.

Deixe a ficha cair.

Entendeu agora?

O que acontece com a ideia de democracia se os Estados Unidos viram uma ditadura escancarada?

Veja bem, eu disse que eles são campeões da ideias e não das práticas democráticas, afirmativa que seria questionável quando observamos a forma como eles se relacionam com o restante do mundo. E mesmo que ainda seja discutível se algum Estado Democrático de Direito é realmente democrático (eu disse que pensava demais) acho que a pergunta continua válida. 

Costuma se dizer que a mulher de César não deve apenas ser honesta, acima de tudo ela deve parecer honesta. A verdade é que as aparências ainda são de extrema importância. Em tudo. A imagem que construímos é crucial para nosso sucesso em nível pessoal, mas também para o crescimento das empresas e, podemos afirmar sem medo, até mesmo para a disseminação de ideais. 

E o que acontece com a ideia de democracia - já desgastada - se a "maior democracia do mundo" vira uma ditadura fascista?

Vejam bem: os EUA ainda estão muito longe de serem uma ditadura. E de serem fascistas. Mas com as recentes atitudes do Trump, que vem constantemente passando por saias justas desnecessárias, o país tem mostrado um nível preocupantemente baixo de respeito e estabilidade institucional. Por exemplo, conforme foi noticiado pelo The Guardian, agentes do DHS se recusaram a respeitar uma ordem judicial que declarou ilegal a ordem executiva de Trump proibindo a entrada de imigrantes de alguns países muçulmanos. Uma agência do governo federal (poder executivo) simplesmente se recusou a atacar determinação do poder judiciário, ainda que este estivesse apenas agindo no exercício regular de suas funções. E se acontecer alguma coisa lá? Quem pode dizer que não vai?

O socialismo morreu, o capitalismo agoniza e eu não ando me sentindo muito bem. Uma a uma as grandes ideologias vão morrendo. Pelo que a gente vai lutar? Querendo ou não, no mundo todo pessoas que vivem sob o jugo de regimes autoritários olham para os americanos como referência. Ainda que seja uma referência imagética, se até ela for perdida o que acontece?

Quando eu fiz o Ensino Médio, ensinaram a gente a fazer a redação problematizadora padrão ENEM. Apresentar um problema e dar uma solução. Uma pergunta e uma resposta. Não esperem uma solução para isso. Eu também não sei. Só vim aqui jogar essas palavras na rede e semear o caos.

In Trump we trust.

15 de dez. de 2016

Monografia

Banca de monografia: Como foi.

O meu orientador olhou para nós e declarou instituída a banca. Apresentei meu trabalho. Em oito dos dez minutos disponíveis. Todos ficaram bastante surpresos com a minha objetividade. A primeira avaliadora falou. Elogios, considerações. Disse que eu escrevia bem. Anotei os apontamentos dela, foram muito bons. Falou a segunda avaliadora. Mais elogios. Disse que usou os critérios de avaliação de trabalhos de pós porque o meu estava no mesmo nível. Elogiou muito o meu segundo capítulo - ela é doutora no tema dele. Disse que eu tenho uma capacidade analítica e de articulação de conceitos muito grande. Meu orientador falou por último. Elogiou muito. Disse que ficava emocionado de ver a conclusão desse projeto. Foram três anos de pesquisa, desde a iniciação científica (fui bolsista do CNPq durante a maior parte da minha graduação). Eu saio da sala. Menos de três minutos depois eu sou chamado de volta. Saiu a nota: 10. Recomendação para publicação - após a realização de uns pequenos ajustes.

Banca de monografia: Como deveria ter sido.

A mesma coisa. Só que narrada pelo Galvão Bueno. 

Sério, imagina só. 

"Bem amigos da Rede Globo, estamos aqui ao vivo aguardando o início de mais uma defesa de monografia. De um lado o Zé, do outro a banca, já perfilados no meio da sala. Já foi executado o hino nacional e estamos só esperando a autorização do orientador para dar o início a mais esse espetáculo. Foram três anos de PIBIC, minha gente. O que você acha disso, Casão? É Galvão, o Zé é um pesquisador com uma certa experiência, apesar de novo, já tem artigos publicados, foi a grande revelação do Departamento de Direito em 2014, foi premiado. Olha, vou ter que te interromper porque parece que o orientador já autorizou o início da banca. E começa a falar o Zé. E lá vai ele, apresentando o trabalho. Começou na motivação, agora está indo para as premissas fundamentais que norteiam o trabalho e aproveitou para introduzir o primeiro capítulo, já está fazendo o segundo. Impressionante como ele faz a transição rápido, essa é a defesa de monografia moderna, não é mais como era na sua época, não é Casagrande? Ih, peraí que eu falei demais e ele já está chegando ali no terceiro capítulo, olhou, limpou a marcação e partiu pra conclusão OLHA O QUE ELE FEZ OLHA O QUE ELE FEZ ele já acabou de falar tudo em oito minutos, pode isso Arnaldo? Olha, Galvão, a regra é clara: ele tem até dez minutos, ele pode apresentar em menos, mas não pode passar de dez minutos. E lá vai a avaliadora, fazendo os seus comentários. Elogiou as notas de rodapé. Rapaz, na minha época eles não liam nem o título. Ele respondeu bem, agradeceu e partiu agora a segunda avaliadora, bola dominada, la vai ela. Disse que vai ser mais rigorosa porque o trabalho ficou muito acima da média. Haja coração, meus amigos, haja coração. Galvão, parece que levantaram a bandeirinha aqui e teve impedimento. Ele confundiu o conceito de transcendência, de Spinoza, com o de transcendental, do Kant. Mas já entrou o orientador aqui pra dizer que foi um cochilo dos dois e autorizou a seguir o lance. E parece que vai ter pergunta, vai ter pergunta. Aí meu Deus do Céu, vai ter que explicitar um conceito que ele abordou no último parágrafo, já no finalzinho. E agora partiu o orientador, elogiou a capacidade do trabalho do orientando, reconheceu o momento difícil e encerrou a defesa dando os parabéns. O Zé foi retirado de sala. A banca delibera a nota, olha a tensão ali, ele andando de um lado para o outro do corredor. Aí, aí, aí... Haja coração para aguentar um momento como esse. E já foi chamado de volta. Sentou. Agora é só ele e a banca. E lá vai o orientador, tomando a palavra. Só ele e o Zé. Vai que é tua, Zé! Vai que é tua, Zé! É o Brasil inteiro com você! E lá vai o orientador, ele toma distância da bola. Partiu, vai correndo, vai anunciar a nota. Vai que é tua, Zé! Vai que é tua, Zé. E lá vai ele, na bola! DEFEEEENDEEEEEUUUUU DEFEEEENDEEEEEEUUUU ACABOU ACABOU ACABOU ACABOU É TETRAAAAA É TETRAAAAAA Está formado o Zé, com nota 10 e trabalho indicado para publicação (começa a tocar o tema da vitória). Que emocionante, meus amigos! É o Zé sendo campeão!! Comemora com a torcida, abraça muito o resto do time. E vai ter banho de Gatorade no orientador, vai ter banho de Gatorade no orientador. Nosso repórter Tino Marcos acompanha a festa aí na beira do gramado, vamos falar com ele agora. E aí, Tino, como tá essa festa aí? Olha, Galvão, o clima é de muita alegria, muita felicidade aqui pela conquista. Os jogadores se abraçando aqui na beira do campo e eu to indo agora falar com ele, o craque desse time. Ô Zé, vem cá, dá uma palavrinha pra câmera aqui, conta pra gente, como foi defender essa monografia?

Zé (ofegante): olha, foi muita emoção, muita disputa, foi muito duro, monografia é isso mesmo. A gente tava confiante. Fizemos tudo que o orientador mandou e graças a Deus conseguimos sair daqui com os dez pontos. Agora cê me dá licença que eu to indo beber e só acabo quando o Lula for preso: amanhã!"

19 de jun. de 2014

E se os deuses gregos jogassem futebol?

Todos estamos familiarizados com a rica mitologia grega do período clássico, uma época na qual ainda não existia o futebol. Isso não significa que os gregos ficavam sem se divertir, óbvio, mas sim que eles precisavam buscar outras formas de diversão, como o sexo, as guerras e a filosofia. Por este motivo, infelizmente, uma das perguntas mais angustiantes ainda estava sem resposta até agora: em que posição jogariam os deuses gregos em um time de futebol?

Antes de prosseguirmos, uma observação: esse é o time masculino, então não entram aqui figuras como Hera, Afrodite e Atena, para ficar nas mais conhecidas.

Goleiro: Hades.
A posição de goleiro é tão maldita que nem a grama cresce dentro da área. Ok, hoje em dia até cresce, mas vocês entenderam o espírito. O goleiro é, tradicionalmente, o renegado de qualquer time de futebol e ninguém encarna melhor esse espírito que Hades, o senhor das profundezas. Ele não vive no Olimpo, junto com os demais deuses, mas sim no mundo inferior, onde domina tudo. Ali, separado do resto, possui um poder tamanho sobre seus domínios que pode até tocar a bola com as mãos. Costuma crescer nos torneios de mata-mata.

Lateral direito: Hermes.
Envergando a camisa 2 deste escrete mitológico está o mensageiro dos deuses. O mais veloz dentre todos eles, apóia o ataque e marca na defesa de forma incansável, entregando bolas nas cabeças de seus companheiros com cruzamentos extremamente precisos. O deus protetor dos ladrões também rouba bolas com uma facilidade incrível, sendo um dos pilares da fabulosa defesa grega.

Zagueiro pela direita: Ares.
Xerifão e camisa 3 do time, o deus da guerra combate seus adversários de forma implacável, sendo conhecido pela sua raça em campo. Temido por lutar todos os 90 minutos  de forma incansável, defendendo a meta de Hades como um espartano defende as Termópilas, o zagueirão as vezes exagera na força dos seus carrinhos e acaba levando, junto da bola, uma das pernas de seus adversários.

Zagueiro pela esquerda: Pan.
Aparentemente, não seria a escolha adequada. Afinal, possui baixa estatura, pernas tortas e cascos. Apesar disso, ele se provou extremamente eficaz na jogada área graças aos seus chifres, muito bons para afastar a bola da área e para usar no peito dos adversários. Sua arma secreta é o seu temido berro, que faz com que mesmo os mais experientes adversários saiam correndo de medo. Contra ele está o fato que as vezes some de campo, o que faz com que todos os sátiros da Grécia saiam em busca dele, causando grandes engarrafamentos e outros inconvenientes, como derrotas em jogos decisivos.

Lateral esquerdo: Poseidon.
Camisa 6 e capitão da equipe, o deus dos mares é o grande líder do time dentro de campo. Apoia e defende com grande vigor. Quando vai ao ataque, causa um terremoto nas defesas adversárias, as vezes de forma literal, trazendo grandes baixas aos times e torcidas rivais. Famoso por seu temperamento curto, é freqüentemente visto dando broncas nos companheiros, brigando com os adversários, discutindo com o técnico e tentando expandir seus domínios. Ao contrário da maioria dos jogadores, joga melhor com o campo encharcado.

Cabeça de área: Hefesto.
Apesar de ter uma perna menor do que a outra, não recebeu a camisa 7 do time, mas sim a camisa cinco e junto dela, a função de ser o operário do time. Hefesto trabalha duro lá atrás para que seus companheiros mais habilidosos possam jogar despreocupados na frente. Abnegado, corre o jogo todo e conta com sua feiúra para assustar os avançados rivais. Todavia, apesar da experiência, costuma entrar na pilha das torcidas adversárias quando elas começam a cantar "Ô Hefesto, como é que é? O Ares já comeu sua mulher!"

Camisa 8: Hélio.
É a carruagem que conduz o time grego no ataque e na defesa, sendo responsável por iniciar a armação das jogadas e também por auxiliar Hefesto no combate no meio de campo. Com isso, vai e volta pelo gramado o jogo inteiro, de forma incansável. Hélio parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo e nada que acontece no jogo escapa ao seu conhecimento, o que fez com que ele se tornasse elemento vital para o sucesso do escrete grego. Possui no entrosamento com Apolo um de seus pontos fortes.

Armador: Apolo.
Elegante ao extremo, Apolo é um meia armador clássico, com excelente leitura de jogo. Sua capacidade de prever o posicionamento dos seus companheiros e dos adversários, aliada a sua lendária pontaria, faz com que ele seja capaz de dar passes e lançamentos precisos que, em geral, terminam em gol. Além disso, chuta muito bem de longe, com as duas pernas, sendo uma das mais perigosas armas do escrete grego. É o batedor de faltas e escanteios do time.

Ponta direita: Bóreas.
O vento norte é o camisa 11 desta equipe fantástica. Dono de uma velocidade inacreditável, forma com Hermes uma dupla infernal pelo setor direito do ataque grego, que causa dores de cabeça e resfriados nos adversários mal-agasalhados. Tido como um dos jogadores mais frios da equipe grega, cresce nos momentos decisivos e nos grandes jogos, nos quais costuma entrar voando. 

Centroavante: Heracles.
Nascido mortal, o camisa 9 também é filho de Zeus e foi tornado divindade após sua morte em honra aos seus grandes feitos. Jogador de força, rompe as defesas adversárias com muita facilidade e rebate as críticas de que só seria titular por ser filho do técnico com um instinto letal dentro da área e também argumentando que metade do time também o é. De excelente cabeceio e chutes potentes, é um matador nato conhecido por exterminar as defesas adversárias e o Leão de Neméia.

Ponta esquerda: Dioniso.
Apesar de ter as duas pernas do mesmo tamanho, Dionisio possui a responsabilidade de carregar a pesada camisa 7 do selecionado grego. Absolutamente caótico e raramente visto sóbrio, Dioniso toca o terror nas defesas adversárias, driblando seus rivais de todas as formas possíveis e de algumas outras ainda não criadas. Costuma desdenhar dos seus adversários e é conhecido pelas festas que dá na concentração, que são o pesadelo de qualquer treinador.

Técnico: Zeus.
Grande comandante do time grego, Zeus é o responsável por amar o time e escalar os jogadores. Extremamente preocupado com a parte tática, ensaia cobranças de falta e de escanteio exaustivamente. Graças a ele, seu time tornou-se imbatível no jogo aéreo. De temperamento curto, grita o tempo inteiro à beira de campo e as vezes, por isso, acaba criando tempestade em copo d'água. Em algumas ocasiões, todavia, as tempestades são literais, o que gera condições de jogo perfeitas para Poseidon. Apesar de ser o treinador do time, é visto escapando da concentração com freqüência, mesmo sob cerrada vigiliância de Hera, sua esposa.

12 de jun. de 2014

A menina do guarda chuva

Aviso: esta história toda é real. Nada disso foi inventado. Ok, talvez não tenha aparecido um monstro de três cabeças no esgoto durante a fuga, mas todo o resto é real, juro. 

 Foi numa noite chuvosa, não lembro o dia, o mês talvez fosse junho, talvez fosse maio. O ano era, com certeza, 2012, o ano que o mundo por pouco não acabou. Estava eu voltando para casa, tinha acabado de saltar do ônibus e estava atravessando a passarela que separava o ponto de ônibus da minha casa, que ficava no outro lado da rua quando eu a vi.

Era uma jovem sem nada de especial, falando algo com alguns amigos. Riam. Eu provavelmente nem a teria notado – e nesse caso ela não passaria de um traço em alguma memória longínqua de uma insossa noite fria e molhada – quando aconteceu algo que alteraria o curso de nossas vidas, ainda que muito brevemente.

O guarda chuva dela saiu voando da passarela e caiu na cabeça de alguém. 

Eu, naturalmente, fiz o que qualquer um teria feito em meu lugar: parei para rir enquanto ela e seus amigos se debruçavam na passarela para ver o que tinha acontecido com seu guarda-chuva. Estava prestes a retomar meu caminho para casa quando ouvi uma voz: Meu chapéu caiu! Era ela, a dona do guarda-chuva. Me senti um pouco mal pelo riso e tal e decidi fazer alguma coisa para ajudar. Eu reparei que alguma alma caridosa, mas não muito observadora, estava tentando jogar o guarda-chuva de volta para a passarela. Aberto. Eu disse para a menina olha aquela senhora ali ta jogando seu guarda-cuva aberto, manda ela fechar ou ele vai voar de novo ah! obrigada e fui voltando na direção de casa quando, de repente, ouvi um grito: espera!

Esperei.

Você já passou no vestibular?

A pergunta, confesso, me deixou um pouco desnorteado. De todas as coisas que alguém poderia ter me perguntado, aquela era a mais improvável. Pelo cenário, ela podia ter me oferecido drogas que teria sido mais plausível! Olhei meio tonto pra ela e disse: como? Você já passou no vestibular?

Aquela altura nada mais fazia sentido naquela noite bizarra e chuvosa.

Balbuciei que sim. Ela perguntou que faculdade eu estava fazendo. Eu disse que fazia Direito. Ela veio correndo na minha direção, me abraçou e disse É A FACULDADE QUE EU QUERO FAZER!! Ela me soltou e eu, que ainda não tinha entendido o que tinha acontecido, me vi confrontado por outra pergunta qual o seu nome? José? Não, seu nome completo e eu, inocente, falei. Não tinha percebido o que tinha acabado de fazer até ela falar: ótimo! Vou te adicionar no facebook!

Voltei pra casa pensando cara, que coisa bizarra. Ainda estava levemente desorientado. Cheguei em casa, tomei banho, comi alguma coisa, li alguma coisa – a vantagem de uma sopa de letrinhas é poder fazer essas duas ao mesmo tempo – fui dormir e no dia seguinte constatei que ela havia, de fato, me adicionado em seu facebook. Tínhamos, inclusive, amigos em comum. Primeira dúvida do dia: aceito ou não ela? 

A favor: era uma situação engraçada. E tinha também a curiosidade: queria ver até onde isso iria.

Contra: era uma situação bizarra. Ela podia ser uma traficante de órgãos. 

Adicionei. Se ela perguntasse, diria que meu fígado não funcionava direito. 

Quase instantaneamente, recebi um simpaticíssimo oiiiiiii! Oi, tudo bem? Tudo. Você gosta de pão de queijo?

Pausa no universo.

COMO ASSIM EU GOSTO DE PÃO DE QUEIJO?? QUAL SEU PROBLEMA COM ESSAS PERGUNTAS?? ELAS NÃO FAZEM SENTIDO!!

Volta o universo.

Gosto. Ok vou levar pra você – ai caralho que porra é essa? Ok, mas escuta, quando você vai me entregar esse pão de queijo? Ué, quando a gente se encontrar né? EITA PORRA. Mas como você sabe quando a gente vai se encontrar? Ué, a gente não ia se ver hoje? NÃO, AQUILO FOI UM ACASO. ALIÁS, UM ACIDENTE. NÃO VAI ACONTECER DE NOVO. Não, olha só, a gente se encontrou foi por acaso, eu não tava programando aquilo, não da pra saber quando a gente vai se encontrar de novo né? Ah, tudo bem, da próxima vez eu te dou os pães de queijo. NÃO VAI TER PRÓXIMA VEZ FILHA!! Se bem que pão de queijo é uma proposta tentadora. Ah, ok XD. 

Essa foi só a primeira de muitas mensagens. Incessantes, insistentes, meio repetitivas até. Queria lembrar de mais coisas, mas muito eu já esqueci. Sabem como é, a memória apaga as coisas ruins.

Oiiiii. Oi. Você ta chateado? Hein? Não, pq? Pq vc mandou um "oi" tão murcho. Não, eu não to chateado, todos os meus ois são assim. Foi alguma coisa que eu fiz? Ai meu caralho pqp. Não, você não fez nada. Aqui, melhorou? Oi XD. Melhorou sim :).

Não preciso nem dizer que era meio louca né? Mas o pior ainda estava por vir.

Você não estudou no colégio X? Estudei sim. Ano passado né? Sim. Terceiro ano né? Sim, pq? Eu ficava te vendo lá com seus amigos, eu ficava te observando almoçar toda semana no restaurante XYZ. Fodeu, ela sabe onde eu moro e está armada. 

A partir daí ficou claro para mim que ela queria meu corpo nu em cima da mesa dela. Nem que fosse para remover o meu fígado cirurgicamente. 

Naturalmente, como qualquer pessoa que se encontra perseguida por uma pessoa potencialmente perigosa, fiquei um tanto quanto assustado. Confesso que não sabia o que fazer. Não, bloquear a menina não era uma opção. Em parte porque não pensei nisso, era óbvio demais para ser uma idéia minha. Spoiler alert: Eu nunca faço nada óbvio. Eu sou incapaz do óbvio. 

Enfim, meu estratagema brilhante foi até um tanto simples: ficar na espreita para dar o bote. O bote, sendo, no caso, uma fuga em desabalada carreira para alguma outra dimensão paralela. 

Depois de algumas semanas, a oportunidade perfeita surgiu. No dia dos namorados. Ela me mandou uma foto segurando uma flor. Que flor bonita! Seu namorado que te deu? Não, foi o moço da floricultura. Eu disse que não tinha namorado e ele ficou com pena, disse que eu era muito bonita e me deu essa flor. E você, tem namorada? Não. Mas to quase, vou sair com ela hoje e espero que tudo de certo.

Silêncio avassalador do outro lado. Desfrutei desse silêncio por mais três ou quatro meses. Completo o esquecimento, bloquei-a do meu facebook. 

Também fiz uma plástica, troquei de nome, endereço e arranjei uma segunda família no Ceará.

Nunca se sabe.

1 de set. de 2013

Outro dia, após ir a um bar com amigos, pus-me a refletir sobre a seguinte questão: como reagiriam personalidades históricas a um convite para tomar um porre. Aqui estão minhas conclusões.

Kant: Recusa polidamente o convite. Vinte e sete vezes. Usa as mais variadas desculpas. Tem que cuidar de suas margaridas, está escrevendo um artigo importante,  está ocupado mudando a a história da filosofia ocidental, teve que ir no banheiro etc. Eventualmente concorda. Permanece mudo a noite inteira, tomando gim tônica.

Nietzsche: Quebra o bar inteiro. Sóbrio.

Freud: Chega e pede um conhaque. Acende seu charuto e ameaça castrar o garçom quando este lhe informa que não se pode fumar no recinto. Fica desenhando caralinhos voadores na toalha de papel da mesa a noite inteira.

Stalin: Acha que o dono do bar conspira contra ele. Não paga os 10% e ainda tranca o garçom num gulag. Briga com Trotsky.

Trotsky: Enche a cara e arranja uma briga com Stalin. Acorda de manhã cedo com uma tremenda dor de cabeça. Acha que é ressaca, mas na verdade é uma picareta.

Hitler: Bebe demais. Acorda com uma puta dor de cabeça. Descobre que declarou guerra à União Soviética durante a noite.

Lenin: Se revolta com os preços, derruba o dono do bar e distribui bebida grátis para todos durante a noite. Mais tarde, é visto tropeçando ao dar um passo para trás e dois para frente.

Sócrates: Toma muito cuidado com o que bebe. Cheira o copo antes de leva-lo a boca, pois tem medo de ser envenenado.

Alexandre Magno: Muda o nome do bar para Alexandria.

Engels: Passa a noite inteira choramingando porque Marx furou.

Baudelaire: Já chega bêbado. Enche a cara de poesia.

Heráclito: Não bebe duas vezes o mesmo uísque.

18 de jun. de 2013

Il fiore dei partigiano, morto pela la libertà

Rompo hoje meu silêncio terminal.

O motivo, claro não poderia ser outro.

(Em tempo: começo a escrever esse texto a simbólicas 18:48. A vida tem dessas coisas.)

O motivo, voltando agora ao ponto de partida, deste súbito e inesperado retorno é, como não poderiam deixar de ser, as esplêndidas manifestações que estão dominando o Brasil e o mundo.

Mas eu não vou fazer uma análise detalhada do movimento – até porque tenho plena consciência de que só entenderemos junho de 2013 em junho de 2053 e isso se tivermos sorte – nem as cobrirei dos elogios que merecem, até porque estes se foram todos ontem junto com as lágrimas de alegria que derramei ao ver o Congresso de volta ao Povo.



Este texto se propõe a ser, antes de tudo, um ensaio sobre aquilo que pode vir a ser e, sobretudo, sobre aquilo que não queremos que este movimento se transforme.

Antes de tudo, é preciso deixar bem claro uma coisa: a História brasileira é uma de lutas do povo por seus direitos e também da corrida das elites para sobrepuja-lo e doma-lo, visando manter seus privilégios. A imensa maioria das ditas "revoluções" de nosso país começam com o povo furioso e terminam com um regime autoritário de caráter elitista. Se não na forma, pelo menos na maneira de agir (vide a República Velha). Aqui, as coisas mudam para continuarem as mesmas.

Se formos fazer as contas, vivemos 42 anos de relativa liberdade, de 513 no total. Liberdade plena e irrestrita, de fato, só de 1988 para cá. Nosso maior período democrático foram estes 25 anos entre a promulgação da belíssima Constituição Cidadã e hoje, este exato momento em que eu vos escrevo. E eu temo que eles estejam para acabar.

Não é de hoje que o exército vem se assanhando. Aliás, nossas forças armadas até hoje mantém essa mentalidade golpista. Assim como boa parte da nossa direita não conseguiu abandonar suas raízes da UDN. E a grande mídia jamais perdeu seu gosto pelo poder.

É aí que vivem os monstros. Hoje testemunhamos uma das maiores e mais bonitas ondas de manifestações popular da nossa História e, ao mesmo tempo, se não ficarmos ligados, ela pode virar algo perigoso.

Não pela ação do povo, mas sim por obra das velhas forças que a ele se opõe. A velha mídia já se mobiliza para se apropriar dos protestos. Vemos isso quando Jabor pede desculpas, quando Patricia Poeta justifica a ação da Globo, numa das cenas mais nojentas da tv brasileira, quando Folha e Estadão que incitaram a violência policial num dia vem pedir desculpas no outro, quando a Veja, que sempre se opôs ao que chama de "vandalismo", tenta impor uma pauta ao movimento através de sua capa.

"Nós também não ajudamos a ditadura, não fomos conta o Diretas Já e não favorecemos descaradamente o Flamengo e o Corinthians."

Uma dica: quem num dia quer te ver levando porrada e te chama de vândalo e no outro faz carinho e te apóia, não faz isso por que mudou ou decidiu ficar bonzinho. O que estamos vendo aqui é mais uma tentativa de se apropriar das manifestações de suas reivindicações. Além de afastarem os vinte centavos da pauta, estão o alargando de tudo quanto é forma, incluindo o fim da violência e da corrupção, que são pautas estritamente demagógicas e apenas servem para esvaziar o movimento

O que eu temo, acima de tudo, é que esse movimento belo, popular e democrático se transforme numa  muleta para um golpe. Todos os componentes estão presentes. O exército, a mídia e até grupos sociais relevantes convergem nessa direção. E não me refiro às onipresentes e já citadas elites, mas também à setores da classe média e denominações evangélicas de forma geral.

Não, não os considero o mal do país. Mas é inegável que muitos pastores possuem grande poder sobre suas igrejas e poderiam usar estes expressivos contingentes populacionais como massa de manobra, como, aliás, já tem sido feito em eleições realizadas pelo país. Não nos esqueçamos que um golpe corresponde às expectativas e à retórica de crescimento político de pastores como Macedo e Malafaia. 

Já existem, circulando, relatos e vídeos mostrando agentes do Estado insuflando a violência. A troco de que, não se sabe.

Mas o país atravessa um momento extremamente delicado.

Ainda assim, apesar de meus temores, reitero aqui que ainda acredito na não violência, na paz, na força das grandes passeatas, no diálogo, no entendimento e, sobretudo, no povo brasileiro.

Tenho plena convicção que superaremos esta crise, não pela força das armas, mas pela força de nossas vontades.


18 de mai. de 2013

Por que o Samuel L. Jackson só faz papel de negro?

Antes de entrar no assunto do título, preciso fazer uma consideração inicial: muitos atores ficam marcados por um determinado papel em sua carreira. Aliás, em certos casos, a palavra mais correta seria presos. Desta forma, o Tom Hanks sempre é um cara bem intencionado e meio alheio ao mundo, o Jim Carrey faz caretas, a Dakota Phanning sempre é aquela criança assustadora de filmes de terror e o Samuel L. Jackson sempre é... negro. (WHAT?)

"Say what again mother fucker"
Calma gente, eu explico. Vai demorar, mas eu explico. Eu me pus a pensar muito sobre isso outro dia, quando atualmente me perguntaram o porque do Samuel L. Jackson sempre fazer papel de negro nos filmes em que participa. Minha reação não vem ao caso, importante mesmo são os pensamentos por ela desencadeados.

Para dar prosseguimento ao texto, é necessário lembrar que o racismo está intrinsecamente ligado ao conceito de normatividade. A partir do momento que determinado padrão estético é considerado como o normal, os demais passam a ficar restritos àquela estranha zona cinzenta do "outro", o que explica, inclusive, porque os japoneses sempre desenham personagens ocidentais (spoiler alert: eles não desenham).

Na nossa sociedade, o padrão normativo estabelecido é o homem, branco e heterossexual. Todos os que não se encaixam neste "tipo ideal" são postos para debaixo da sarjeta e sofrem, em algum grau, com o preconceito e limitações impostas pela sociedade em virtude desta sua condição.

O que nos leva a pergunta do título. Não darei a insossa e esperada resposta objetiva, até porque a graça dela é justamente a reflexão que ela nos propõe. O autor da pergunta, obviamente, viu o negro como o papel marcante na carreira Samuel L. Jackson justamente porque ele não está inserido no padrão normativo na nossa sociedade.

A cor negra se destaca tanto no espectro social brasileiro que, aos olhos de meu interlocutor, se torna um fator bom o bastante para definir a carreira inteira de Samuel L. Jackson - ainda que, a meu ver, o adjetivo mais preciso para descreve-lo seja "fodão".

Isso é racismo. Racista não é só o cara que é contra casamentos entre brancos e negros, o skinhead que espanca índios na rua ou aquele seu amigo que anda com capuz branco e tocha na mão de noite. Racistas somos todos nós - sim, eu e você inclusos, meu caro leitor - que interiorizamos e perpetuamos esse sistema perverso que nada mais fez do que humilhar e ultrajar os negros mundo afora.


28 de out. de 2012

Massacre do Serra elétrico

Um reconhecido líder, capaz de angariar multidões, surge como grande esperança de sua nação após sua derrota apenas para sofrer uma derrota ainda maior.

Não estou falando de Napoleão, mas sim de José Serra. Tal qual o baixinho após Waterloo, o careca mais odiado do Brasil deve estar olhando até agora para a foto do Haddad e pensando "onde foi que eu errei?"

Antes de prosseguir com esta reflexão, eu queria fazer uma rápida observação: a nação da qual Serra era a principal esperança não era, felizmente, o Brasil como um todo, mas sim aquela parcela da população que parece alérgica a qualquer tipo de medida de redução da desigualdade social, que anda pela rua gritando Impostos! Impostos! e que xinga seus inimigos de coisas horríveis como esquerdistas, comunistas e petralhas. 

Enfim, tendo feito essas considerações, acho que já posso responder a pergunta do ilustre aposentado: Serra, você errou em tudo.

E ao fim de uma campanha vexatória baseada em difamação, recebeu o que mereceu: uma derrota sonora nas urnas.

Toda a sua carreira foi uma preparação para esta apoteose as avessas: Serra, o grande e temido Serra, invicto em São Paulo, sendo destronado pelo seu arqui-rival Lula e, de quebra, entregando o grande bastião tucano aos petistas. 

No fim das contas, a derrota do Serra foi melhor para todo mundo. O PSDB, livre da nefasta influência de Nosferatu, se vê livre para repensar seu modelo de oposição e deixar, quem sabe, de ser o clube de amigos da imprensa e passar a se comportar de fato como um partido político expressivo. O PT ganha a maior cidade do Brasil e o Haddad a chance de provar que é mais que um rostinho bonito (até porque ele é feio) e que pode ser sim competente e que o ENEM foi um pequeno acidente. Ou seis pequenos acidentes. 

Mas os principais ganhadores fomos nós, brasileiros, que estamos vendo o fim de um dos piores políticos da nossa História. Ainda faltam muitos Malufs e Sarneys por aí, mas aos poucos vai desaparecendo o que há de pior em matéria de política nesse país. 

Só espero que esta nova geração seja melhor que a anterior.

11 de set. de 2012


Eu nunca consegui entender esses arquitetos. Quem projeta um prédio com o vão das escadas dando no saguão? É tão feio.

Mas daqui de cima eu consigo ver todas as pessoas.

Elas estão ocupadas.

Cada uma vivendo sua vida. Em silêncio. Sozinhas. Pouco importa quem está ao meu lado (existe alguém ao meu lado?).

Uma vez inventaram o próximo. Foi uma péssima ideia.

E lá embaixo as pessoas seguem indiferentes. Ninguém ri, ninguém chora, ninguém liga. E, acima de tudo, ninguém grita.

Ninguém, absolutamente ninguém, jamais gritou dentro deste prédio. Estamos entretidos demais com a burocracia para isso.

Chega de tudo aquilo que é primitivo e essencial. Vamos por um terno.

A vertigem não é um medo de cair simplesmente. É mais do que isso. Vertigem é uma vontade tão grande de cair que a vontade que dá é de se jogar logo. E é isso que dá medo. O que aconteceria se eu me jogasse?

Um grito corta o prédio.

No chão, um corpo. Giz. Sangue.

Um bilhete. Suas últimas palavras.

“Desculpem pela bagunça”

10 de set. de 2012

Precisamos de mais anjos

"Ali ele virou uma espécie de anjo vingador. Um anjo preto, zangado, irritadiço e sempre à beira de um ataque de nervos." 

Essa frase, retirada da coluna de hoje do Noblat, é uma definição da repercussão do papel de Joaquim Barbosa no julgamento do Mensalão. Mas, sem querer, o colunista do Globo dá uma aula sobre como funciona o racismo no Brasil.

Observemos que, após qualificar o Ministro como anjo, ele acrescenta algumas características que, da maneira como está escrito, parecem não ser as que lhes são normalmente atribuídas. Dentre elas, negro.


"Não sou racista. Tenho quatro amigos negros."
Antes de prosseguir, quero deixar algo bem claro: este texto NÃO é muito menos pretende ser uma apologia ao racismo, nem desejo acusar o Noblat de ser um nazista ou algo do gênero. Estou apenas tentando fazer uma análise dos acontecimentos.

E o fato é que nós somos absurdamente racistas. Mas nosso racismo não é daquele tipo honesto e escancarado. É um segredo guardado a sete chaves. É racismo do cara que diz que claro que não, que absurdo, não sou racista, tenho até um amigo negro com a maior naturalidade, como se ter algum amigo negro fosse algo absolutamente incomum e inusitado.

É um racismo que só vem a tona quando, ao descrever um anjo, precisamos frisar que ele é negro, porque, se não o fizermos, ninguém vai perceber. E esse tipo de comportamento está tão enraizado em nossa cultura que nós nem nos damos conta de que o repetimos na maior parte do tempo. Inclusive, muitos dos que lerem este texto vão achar que eu estou ficando maluco e vendo coisas. Alguém poderia dizer, para contrapor meu argumento, que nunca viu uma imagem de um anjo negro representada em lugar nenhum, ao que eu responderia, como qualquer pessoa sensata, que isso é só mais uma evidência gritante do óbvio: a sociedade brasileira é racista.

E não apenas somos racistas como, num perfeito caso de esquizofrenia coletiva, negamos com veemência nosso racismo e desenvolvemo um agudo preconceito contra pessoas racistas. É um mecanismo de auto-defesa, na medida em que o racismo que enxergamos nos outros absolve-nos da nossa própria visão racista de ver o mundo. Aliás, onde escrevi esquizofrenia, poderia muito bem estar escrito hipocrisia que o texto não perderia muito em sentido.



Basta apenas recordarmos daquela pesquisa que mostrou que, embora cerca de 95% dos brasileiros não se considerassem racistas, um número ainda maior disse conhecer alguém racista. Provavelmente devem ter visto algum racista andando na rua alguma vez mas assim, bem de longe, porque eu não tenho nada a ver com isso.

O que torna o racismo tão difícil de ser erradicado no Brasil é justamente seu caráter sigiloso, agravado pela recusa dos brasileiros em admitir que tem algo de podre no meio da democracia racial. E a admissão de um vício, como se sabe, é o primeiro passo para sua superação.

8 de set. de 2012

Preparem suas toalhas, eles vem aí

Eu tenho certeza que existe vida fora deste planeta.

Na falta de uma introdução melhor, a verdade nua e crua jogada como uma bomba deveria servir. Agora que já tenho sua atenção, posso desenvolver melhor o tema proposto. Que, por acaso, foi jogado no parágrafo acima, num lapso de coerência raramente observado neste blog.

Embora eu não fique olhando para o céu a noite procurando discos voadores, nem jamais tenha encontrado homens azuis andando por aí, eu sei que eles existem. E essa coisa toda é muito mais lógica do que parece.

Existem pelo menos 170 bilhões de galáxias no Universo. Elas variam, no número de estrelas, entre 10 milhões e 100 trilhões. E, em torno das estrelas, costumam agrupar-se planetas. Só o nosso Sistema Solar tem oito. Sem contar Plutão, que ainda passa por uma briga judicial para reaver sua antiga condição.
One galaxy to rule them all
Eu não fiz a conta por medo do número que poderia surgir ao termina-la, mas podemos perceber que é enorme. É muita inocência acreditar que só aqui existiria vida. Ainda mais se considerarmos que nem todas as formas de vida tem que se basear, obrigatoriamente, em carbono. Aqui mesmo na Terra encontraram, dia desses, uma bactéria com enxofre em seu DNA.

A grande pergunta que eu me faço é onde eles estão. Acho que pelo tempo que o nosso planeta tem de existência, era de se esperar que pelo menos algum ser já tivesse passado aqui para destruir e conquistar. Digo, fazer uma visitinha.

Daí surgem algumas possibilidades. Número um: eles são muito inteligentes e acharam que bom, já que a gente não tem nada o que fazer naquele planetinha azul, talvez nós devessemos destruir e conquistar o vermelho ali do lado, o que explicaria muita coisa, inclusive o porque de Marte ser vermelho. Poderíamos pensar justamente que eles ainda não desenvolveram tecnologia o suficiente para viagens tão longas e que, talvez, as civilizações sigam um padrão Universo afora de crescimento tecnológico, esgotamento e extinção. A má notícia, para nós, é que estamos chegando cada vez mais perto do último ciclo.

Mas a que mais me agrada, e que me parece mais provável de já ter acontecido, é eles já terem vindo aqui, conquistado, destruído e, com medo de uma vingança, mataram as formas de vida mais avançadas, deixando apenas os mais ineptos. O que explica muita coisa acerca da condição humana.

Talvez não tenha sido um meteoro que tenha destruído os dinossauros, mas sim um bando de aliens com medo, sei lá, de que os tiranossauros evoluíssem e conseguissem um par de braços decentes.

6 de set. de 2012

Outro debate

Hoje eu tive a oportunidade de assistir três candidatos debatendo ao vivo. Deveriam ser quatro, mas o Rodrigo Maia aparentemente teve uma crise de bom senso e decidiu que a PUC não seria o melhor lugar para ele estar num debate. O prefeito Eduardo Paes também deve ter sido contaminado, uma vez que decidiu não aparecer, estragando aquela que deveria ter se tornado a maior vaia de todos os tempos, seguida daquela que provavelmente seria a maior cara de bunda acompanhada de sorrisinho amarelo jamais feita na História. Alguém deveria fazer alguma coisa antes que o bom senso se torne epidêmico.

Enfim, decidi deixar aqui a minha impressão sobre os três presentes.

Aspásia: Estaria melhor concorrendo a avó. Sinceramente não consigo entender o que ela está fazendo nessa eleição. Só fala sobre sustentabilidade e meio ambiente e nem isso ela sabe. Hoje passou vergonha ao mostrar que não sabe como a guarda municipal funciona.

Freixo: As melhores propostas e a fala mais consistente. Fiquei impressionado com o carisma dele. Mesmo estando visivelmente cansado, aparentando as vezes estar alheio ao debate, respondeu com clareza e objetividade a todas as perguntas, ou seja, foi o extremo oposto dos seus concorrentes.

Otávio Leite: Estava completamente perdido, mas deixou transparecer um pouco de competência. Discordo dele em vários aspectos, principalmente ao propor uma maior participação da iniciativa privada no governo, o que já era esperado por sinal. Só chamou a atenção ao ser vaiado pela platéia, mas ainda assim foi uma surpresa muito positiva. É bom saber que existem candidatos viáveis além do Freixo.

3 de set. de 2012

Num piscar de olhos

Eu queria saber como os atletas paralímpicos brasileiros conseguem medalhas. Aliás, como eles conseguem sequer os índices para serem aceitos na competição. Afinal, já é do conhecimento de todos que o esporte no Brasil, exceção feita ao futebol, é algo relegado a segundo plano em nosso país. E como se o descaso não fosse o suficiente, eles ainda tem que encarar, digamos, obstáculos extras. Pernas, por exemplo.


Conheça Alan Fonteles. O que ele fez para merecer uma imagem gigante no meio desse post? Ganhou uma medalha. De ouro. Nos 200 metros rasos. Competindo contra Oscar Pistorius. Sim, a lenda. O Bolt das Paralimpíadas. O primeiro paralímpico a competir em uma Olimpíada. Atropelado pelo rapaz que corria com próteses de madeira na infância. 

Quando eu digo atropelado, não é uma forma de me expressar. Tal qual um BRT humano, Fonteles imprimiu uma aceleração sobrenatural e passou com facilidade por Pistorius e mais uns dois ou três competidores no seu caminho para uma incontestável vitória. 

Mas o que mais me chamou a atenção foi a cena que seguinte. Após cruzar a linha de chegada, o novo campeão renunciou as dancinhas de praxe e foi comprimentar, um por um, seus concorrentes. Inclusive Pistorius, ganhador da medalha de prata, que havia posto em questão a capacidade do atleta brasileiro.

Ato que mostra a elegância e sobretudo a humildade de um homem que trabalhou duro para chegar ao topo e que, não somente reconhece o valor de seu esforço, como também reconhece o esforço dos que foram derrotados.

A ele, todos os elogios serão poucos. Alan hoje é uma lenda, mesmo que rejeite este rótulo. É um grande exemplo de superação, de garra e de tantos outros adjetivos que, de tão escassos, já viraram lugar comum. 

Alan é um campeão nato. E merece todas as congratulações possíveis

1 de set. de 2012

Foi seu primeiro assalto?

De todas as perguntas que me fizeram até agora, essa foi a que mais me impressionou.

Aliás, antes de prosseguir, preciso esclarecer um ponto: eu fui assaltado um dia desses. Ainda nessa semana. Por isso que as pessoas continuam pedindo detalhes e perguntando se eu estou bem. Eu achei legal explicar isso porque do jeito que eu escrevi alguém podia achar que eu andei por aí assaltando.

Enfim, antecipando-me as perguntas mais comuns, eu não fui agredido, eu estou bem, eu fui cercado por um bando durante o dia, levaram meu celular, mas eu bloquei o chip e recuperei o número, apesar de ter perdido todos os meus contatos e não, eu não conseguiria re-escrever esse parágrafo com menos vírgulas.

Voltando à pergunta. Eu a achei tremendamente impactante porque ela mostra uma realidade que, por vezes, nos esforçamos para esconder: assaltos fazem parte do nosso cotidiano.

Se você mora no Rio, provavelmente já ouviu alguém dizer que "Quem mora no Rio e diz que nunca foi assaltado, não mora no Rio/ é poser" ou algo que o valha. Essa frase nunca fez tanto sentido como no momento em que me fizeram essa pergunta.

Claro, eu sei que foi com boa intenção. Ou pelo menos foi bem parecido com isso. Mas a pergunta foi seu primeiro assalto deixa solto no ar um fiapo de frase. Um complemento do tipo: seu primeiro de muitos, cuidado com o próximo ou te desafio a quebrar meu recorde de 17 assaltos na mesma semana.

O fato é que o carioca, assim como  habitantes de outras cidades exageradamente grandes, se habituou aos assaltos. Ele sabe como deve proceder, anda sempre atento, evita lugares estranhos a noite, não guarda todo seu dinheiro apenas na carteira e sabe que, se for necessário, tem que torcer para o ladrão ser "gente fina" e deixar um trocado por ônibus ou não levar a mochila com seus livros e cadernos.

Esse consentimento tácito é o sinal mais claro de que os assaltos e a violência passaram a fazer parte da vida do Rio de Janeiro.

Talvez esse texto pareça um pouco atrasado com essas UPP's, mas é importante lembrar que apenas levar a polícia sem uma inserção profunda do Estado em pouco ou nada mudará essa realidade.

Mas isso é assunto para outro dia.

27 de ago. de 2012

É chegada a primavera

Votarei no Freixo.

Como sei que não é usual tomar posições políticas assim bem definidas neste blog, repetirei o parágrafo acima para convencer os leitores incrédulos: Votarei no Freixo.

Votarei sim no Freixo sem pensar duas vezes. Aliás, não é preciso nem pensar  para se perceber que ele é, disparado, o melhor candidato dessas eleições no Rio de Janeiro.

Ele não é o melhor tão somente por ter as melhores propostas. Não, isso seria muito fácil. Literalmente. Vocês já viram os concorrentes?

Mas este post não é sobre os concorrentes, mas sobre o Freixo. E sobre os motivos que me levaram a escolhe-lo como candidato.

Além das propostas, o que me impressiona nele é a genuinidade. Tudo que vem da campanha dele é expontâneo. Ele não comprou o apoio de artistas, nem se vendeu a uma coligação gigantesca.

Freixo é muito mais que uma pessoa, ele é a personificação de um ideal. Ele representa o que eu e milhares de outros jovens desejam para a nossa cidade. E é por isso que é capaz de gerar essa convergência e de atrair os eleitores mais novos para a política. É um verdadeiro fenômeno.

Alguns dizem que ele não tem chances. Eu acho que tem (outro dia explico o porque). Outros dizem que o poder muda as pessoas. Que mude. Prefiro apostar num cara íntegro, honesto, com grandes chances de alterar a História da minha cidade de maneira significativa do que me resignar e votar em branco ou em reeleger um prefeito medíocre e de conduta duvidosa.

Se preparem. Vai chegar a primavera carioca.

24 de ago. de 2012

Sempre cabe mais um(a)

Naquilo que pode ser o início de uma grande revolução ou mais um daqueles casos que esqueceremos em um mês, um relacionamento poligâmico foi reconhecido como união estável em um cartório da pequena cidade de Tupã, no interior de São Paulo. Ok, nunca fui a Tupã e não a conheço, mas estou assumindo que é uma cidade pequena por estar no interior. Se bem que o interior de São Paulo tem umas cidades bem grandes.

Tamanho a parte, a outrora desconhecida cidade mostrou uma vocação para grandeza, encarnada na corajosa ação da tabeliã Claúdia do Nascimento Domingues. Afinal, se aqui no Rio é algo difícil de ser aceito, imaginem em Tupã.

Muitos agora devem estar me tomando por um entusiasta da poligamia. Peço um minuto de leitura antes que começam a falar que eu sou um pervertido, tarado ou coisas do gênero. Eu, particularmente, nunca estive em um relacionamento poligâmico. Confesso sentir, como muitos, um grande estranhamento ao pensar que mais de duas pessoas podem compartilhar a mesma relação ao mesmo tempo. Normal, fui criado numa cultura monogâmica, por pais que tem um casamento estável, cercado de pessoas que vivem em relacionamentos a dois.

Mas o nosso estranhamento não deve servir de parâmetro para os demais. Não acho que seja correto simplesmente dizer, como já ouvi por aí, que é uma orgia e não deve ser tolerada. Ou, pelo menos, não oficializada.

Uma coisa que eu pensei muito quando li essa decisão foi nos muçulmanos. Afinal, como já é sabido, um homem muçulmano pode casar-se com até quatro mulheres ao mesmo tempo, contanto que seja capaz de sustenta-las. Como fica a situação civil deles? Confesso que não sei. Se o marido fosse juiz, por exemplo, como se dividiria a pensão?

Ainda estamos engatinhando nesse campo e acredito que muito deverá ser feito em termos de legislação e jurisprudência para que esta situação seja devidamente regularizada. Mas estamos no caminho certo, e isso é muito importante.

23 de ago. de 2012

Recentemente, e com uma grande repercussão, o Senado aprovou um projeto de lei que prevê 50% de cotas para alunos pertencentes a minorias ou oriundos da rede pública. Confesso que não abordei previamente este tema por pura preguiça, mas como estou atualizando o blog diariamente agora, pareceu-me oportuno voltar a este assunto hoje, assim como fatalmente deverei escrever textos sobre outros eventos passados que, pelo mesmo motivo, ainda não foram postos no papel. Ou na tela pixelada ou algo assim.

Enfim, falta de assunto a parte, voltemos as cotas. Entendo que é um assunto terrivelmente polêmico e que desperta as paixões alheias, afinal, toca numa questão pessoal para muitos de nós, que é o mérito. A meritocracia, se existisse, deveria sim ser preservada.

Muitos dos meus leitores agora devem ter pensado: Se existisse, porque agora com as cotas não existe mais. É um pensamento muito atrativo, mas é um grande engano. Não existe meritocracia porque simplesmente não existe uma competição justa. E é aí que entram as cotas.

Elas não existem para dar vaga para vagabundo, como muitos dizem, mas para corrigir uma injustiça inerente ao sistema, que é o fato dos alunos de escolas públicas não terem acesso a uma educação de qualidade. Muito do meu mérito em ter passado para a faculdade é, na verdade, do meu pai que sempre se esforçou para pagar boas escolas para mim, algo que nem todos tiveram.

Constatada a óbvia diferença de condições, não se pode falar em meritocracia no Brasil, pois não existe uma competição justa.

Lógico que apenas as cotas não são o suficiente. A cota é um mero paliativo. Insistir apenas nas cotas, como deseja o governo, é errar duas vezes. A primeira é por não solucionar definitivamente o problema, a segunda é por instalar uma sensação de que o problema foi resolvido. Atuando como placebo, as cotas não serão capazes de reduzir essa injustiça inerente ao sistema, mas sim irão amplia-las e aprofunda-las.

A solução ideal para mim seria que o governo se comprometesse a investir mais na educação, com um prazo fixo para o fim da política de cotas. Organização é crucial para esse tipo de investimento.

Também me parece certo que o governo não imponha nada as universidades de maneira direta, como foi feito agora, uma vez que fere a capacidade de autodeterminação destas. Poderia ser incluída na lei uma recompensa financeira para as universidades públicas que cooperassem. Do jeito que elas estão quebradas, ia fazer um grande sucesso.

O que me parece bem difícil quando a gente vê o Ministro da Fazenda dizendo aos quatro ventos que o investimento em educação vai quebrar o Brasil. Com esse tipo de pensamento pequeno, parece que nos limitaremos a dar um jeitinho e deixar por isso mesmo.

Uma pena.

21 de ago. de 2012

Não é dos carecas que elas gostam mais

Acabo de ser surpreendido com a notícia de que o Serra possui o maior índice de rejeição entre os candidatos a prefeito de São Paulo, com inacreditáveis 38% de... sei lá... ódio eleitoral. O que meio que comprova para todo mundo que ele já morreu para a política.

Mas se já tínhamos uma vaga noção do falecimento do político José Serra, porque exatamente essa notícia seria uma surpresa? Simples: estamos falando de São Paulo.

Para os que não sabem, São Paulo é um tradicional reduto do PSDB, visto por muitos como uma fortaleza inexpugnável. Uma espécie de Morro do Alemão da oposição. E foi justamente essa posição da autodenominada Locomotiva do País que levou o intrépido ex-presidente Lula a se embrenhar na selva de concreto armado apenas com um Haddad, que é um tipo de Dilma piorada, numa heróica tentativa de quebrar o monopólio tucano em São Paulo.

Monopólio este que ameaçada ser quebrado por ninguém menos que o improvável Celso Russomanno, do praticamente inofensivo PRB, do qual eu confesso nunca ter ouvido falar antes. Ele que outrora fora comparado a um cavalo paraguaio, um elefante no alto de um poste e, mais ultrajante ainda, ao Haddad, agora lidera as pesquisas com 31% de intenções de voto e um dos menores índices de rejeição por parte dos eleitores. Ou seja: ele vai crescer.

E crescendo, provavelmente vai enterrar de vez o Serra que, como se sabe, precisa ganhar essa eleição para se manter vivo na política. Na provável hipótese de derrota, ele provavelmente será forçado a se aposentar. Mas o que seria ruim para ele poderia se provar algo excelente para o PSDB, que teria em Aécio Neves nome incontestável para disputar as próximas eleições presidenciais. Livre das disputas internas, o único tucano com envergadura suficiente para vencer a Dilma, teria reais chances de chegar ao Planalto.

Mudando um pouco  foco: não seria lindo se Russomanno e Freixo ganhassem as eleições municipais que disputam? Ver as prefeituras das duas maiores das cidades do país nas mãos de partidos nanicos seria um alívio nos dias de hoje, em que vemos a política monopolizada pelo binômio PT/PSDB (sempre acompanhados do PMDB) e, quem sabe, uma promessa de vôos mais altos em 2014.