1 de dez. de 2010

Governo anuncia leilão de cargos

Cansado dos impasses em torno da divisão de cargos que toma conta da atual transição, o Governo Federal decidiu tomar uma decisão ousada: anunciou que vai por a leilão os cargos restantes.

Ao contrário do que está acontecendo agora, este leilão será aberto ao público em geral, bastando apenas comprar o cargo com seu dinheiro, ganhando o ministério aquele que fizer a maior oferta. O Governo ainda não estabeleceu o limite para ministérios que cada presente poderá levar, mas especula-se que gire em torno de três.

A data e o local do evento serão divulgados em momento oportuno.

27 de nov. de 2010

Vôo dos abutres

Ele andava pelas ruas escuras. Cabisbaixo. Perdido. Sem direção. Não sabia aonde ia, o que queria, o que faria, só sabia que seguir sempre em frente era a sua solução, aonde quer que isto o levasse.

No meio do caminho tinha uma lata. A lata foi parar no meio da rua, para aprender a não se meter com a tristeza dos outros.

E ele andava.

E cada passo era uma lágrima.

Alguns litros depois, ele havia chegado. Chegado aonde não queria estar, aonde sabia que já havia estado, chegado aonde haveria de chegar. E tinha uma cama. E tinha um cubículo fétido. O cheiro da podridão era forte em suas narinas. O cheiro da devassidão estava sempre presente. O forte odor do fracasso.

E no meio desse cubículo, havia uma cama. E na cama havia ele. E nele havia dor, sofrimento, choro. E ele não sabia quanto mais agüentava.

Os pesadelos.

Amanheceu. O sol entrava através de frestas minúsculas quase imperceptível.

La fora, as buzinas e a fumaça substituíam os sons e aromas de sua infância. O calor do movimentado centro da grande cidade era infernal.

Batidas na porta. Repetidas na mesma freqüência. Por que alguém tinha que pagar para viver de uma maneira tão miserável?

Ele se levantou. Suas costas doíam de novo. Ele implorou. Trocou sua dignidade por uma semana naquele inferno. De novo.

O bafo quente da manhã o acolheu enquanto procurava um banheiro. Sua dignidade só dava para a cama.

Resolvidas suas questões internas, era a vez de ser acolhido pela melancolia da rotina. A mesmice o aguardava sorridente.

Perdido em sua esquina, atravessado por um mar de ternos. Manequins insensíveis. Sobras. Nada que desse para comer. Ou dormir.

Sobras, sobras, sobras. Malditas pessoas, malditas esmolas. Sorriso. Sobras. Deus-lhe pague. Esmolas. Sorriso. Fome.

E caminhava sem rumo à noite, pelas ruas vazias e becos mal iluminados. A essa hora da noite, a cidade em nada lembrava sua efervescência matinal.

As ruas eram do submundo.

Prostitutas, travestis, mendigos, alcoólatras, ele. A base da cadeia alimentar. Nem as putas o procuravam.

Exceto, é claro, quando ele destinava seu escasso dinheiro aos prazeres carnais. Mas o dinheiro não dava nem para o começo. E ele ficava na mão.

Tosse. Tosse Tosse. Frio. Sangue. Tosse.

E ele seguia em seu caminho, sempre andando para frente, o que quer que isso significasse.

Do alto, ele via toda a cidade. As luzes dos prédios. A luz das estrelas. A luz da felicidade dos outros, que ele agora planejava alcançar.

Seguia em frente. Sempre em frente. A brisa fresca soprava em seu rosto e envolvia seu corpo. Ele flutuava com a delicadeza de uma bailarina. Cobria a cidade com suas risadas. Há quantos anos que seu sorriso não era tão sincero. E suas gargalhadas cobriam de beijos e abraços a cidade que tanto o maltratou, numa sinfonia final de perdão.

E caiu suavemente, deitado sobre o que agora era seu novo leito. Dormiu com os anjos. Dormiu sorrindo e sonhando sonhos de esperança.

E dormiu embalado nas asas dos anjos.

Os raios de sol beijavam seus cabelos delicadamente. Era hora de acordar. Por um momento, ele voltou para os campos de sua infância. Um bocejo. Seus olhos se abrem lentamente.

Ele olha para o céu. As silhuetas, tão familiares, dos grandes prédios lhe dão boas-vindas. Gigantes monstruosos, com seus sorrisos diabólicos.

Ele ficou pálido. Ele suou frio. Ele estava frio. Ele suou pálido.

Seus olhos iam e vinham rapidamente, contemplando o cenário que tomava forma ao seu redor.

Sua vitória virara fumaça em um piscar de olhos, enquanto reconhecia os prédios. A cidade destilava seu ódio em um riso final de escárnio incontido.

Até mesmo ali fora derrotado. Nem sobre sua vida ele possuía direitos. Um fracasso. O último dos fracassos de sua vida fracassada. Ou o primeiro.

Ele estava boquiaberto. Ele estava perplexo. Ele estava atônito. Ele estava estupefato.

Seus olhos voavam rapidamente de esquina a esquina. Ele não podia... Ele não queria...

Ele saiu correndo, tão rápido quanto possível. Lágrimas em seus olhos.

Correu muitos litros.

Ele se cansou. Continuou correndo. Ele se cansou. Continuou correndo. Mais rápido.

Ele parou. Ele foi parado.

Não as gangues. Não de novo.

soco chute chute soco dor mais socos e chutes

Mais dor.

Semi-consciente, foi carregado para longe. E seus olhos lentamente se fecharam.



A MORTE NÂO ACABA





Fim

26 de nov. de 2010

Está preocupado com toda essa violência?

Tem medo de sair de casa e não voltar vivo?

Não sabe como mandar seus filhos para a escola?

Nós temos a solução!

Transporte escolar Tio Nascimento!

O único que conta com veículos blindados e escolta armada.

A solução perfeita para ambientes urbanos como o carioca.

Ligue já! Vagas limitadas!

Obs: Crianças atrasadas serão devidamente punidas.

19 de nov. de 2010

Governo anuncia nova lei de cotas

O governo federal anunciou hoje um projeto de lei que reserva 20% das vagas para pessoas verticalmente prejudicadas. De acordo com o porta-voz do Palácio do Alvorada, o projeto é importante pois "viabiliza a correção de preconceitos históricos direcionados a um grupo de pessoas que por ano só encontrava alternativas de trabalho em circos, sinais e passeatas" além de proporcionar 'um convívio mais amplo e diverso dentro do ambiente dos campus das escolas públicas"

A notícia foi comemorada dentro de ONGs que lutam pela igualdade vertical. Na Onevert (Organização pela equalização vertical) houve até festa. Foi uma grande conquista, como nos explica a fundadora da organização, Eunice Costa: " Foi um projeto muito feliz do governo. É importante esclarecer as pessoas sobre o prejuízo vertical, porque, as pessoas imaginam que existem apenas (pessoas) verticalmente deficitárias, mas o prejuízo vertical se dá também em um âmbito superavitário".

De acordo com o projeto, serão consideradas verticalmente prejudicadas as pessoas com mais de 2,10m e menos 1,10m. "Mas nossa luta não para por aí. Com maior visibilidade, agora poderemos lutar por assentamos mais ajustados em ônibus e carros, por exemplo" diz Eunice.

O Movimento contra o prejuízo vertical tem ganhado cada vez mais visibilidade na mídia e a tendência é, que com o tempo, as injustiças históricas contra esse grupo minoritário sejam corrigidas.

"O Brasil hoje é a vanguarda no combate ao prejuízo vertical!" comemora Eunice, 0,87m.

9 de nov. de 2010

-Amor, eu não entendo...

- Tá tudo bem.

-Não tá! É primeira vez que isso acontece comigo.

- Fica calmo, acontece com todos.

- Mas eu não sou todos!

-Fica calmo.

-Eu sempre fui tão bom nisso. Desde que eu era moleque eu nunca...

-Não acredito que você tá chorando por causa disso.

-Eu não to! Entrou um cisco no meu olho. Nos dois.

-Fica calmo, bebe uma água e a gente já resolve.

-Ok, ok...

15 minutos depois...

-Vem cá, vamos mudar um pouco a posição ok?

-Mudar por quê? A gente tava fazendo tudo tão certo.

-Vamos tentar encaixar com jeitinho então. Me dá.

-Você acha que eu não sou capaz de...

-Me dá logo! Você quer terminar logo com isso ou não?

-Ok, ok...

-Olha, ta encaixando direitinho, é só forçar um pouquinho AAAAAAHHHHH! Foi! Eu não posso deixar essas coisas espalhadas que meu irmão mastiga. Pelo menos a gente montou o quebra cabeças.

2 de nov. de 2010

Auto Mode On

Um robô! Um robô! Um autômato!

Ele voou para dentro da sala, atirando tudo que estava em sua frente, em seu caminho de iras desmedidas.

Todos os miseráveis dias, acordava às miseráveis cinco da manhã para chegar à seu miserável emprego em tempo.

Dava bons-dias miseráveis para todas as miseráveis pessoas que estavam naqueles malditos elevadores.

Porque? Ele não sabia.

Ele já não pensava, apenas agia.

Não passava de um robô.

Ele se resignou e ligou a tevê.

31 de out. de 2010

Eleições 2010

Esse domingo, o Brasil parou para assistir a um clássico. A final do campeonato levou milhões de brasileiros as ruas para torcer por seu time preferido.

De um lado, trajando o tradicional uniforme vermelho carimbado com a estrela solitária, estava Dilma, artilheira da equipe treinada por Luís Inácio, o Lula, um grande craque dos gramados que faz sua estréia fora das quatro linhas.

Do outro lado estava Serra, principal expoente de um dos times mais tradicionais do país, o Tucano F.C., trajando o seu conhecido uniforme azul. A equipe atualmente é treinada por... bem... hãããã... O Aécio é mineiro, vocês sabiam disso?

A equipe de Dilma, favorita, jogou em casa buscando mostrar que chavões tradicionais como: "clássico é clássico e vice-versa" e "clássico não tem favorito" estavam errados. Apesar do treinador Luiz Inácio, o Lula e de Dilma terem mantido um discurso de humildade durante as entrevistas, o clima dentro do vestiário era outro e os jogadores já festejavam o título cantando "Vice de novo" antes do jogo começar, de acordo com o parceiro de ataque de Dilma, Temer Fenômeno.

Do outro lado, o clima era de otimismo. Apesar de não terem mando de campo, os jogadores do Tucano estavam confiantes na presença de sua sempre fiel torcida e esperavam acabar com esse jejum incomodo de oito anos sem título. "Naquela época, eles tinham o Lula do outro lado campo. Ele era imarcável. Com todo respeito a Dilma, que é colega de profissão e grande jogadora, mas não dá meio Lula" disse o novato Indío da Costa, responsável por comandar o ataque junto a Serra e um dos mais otimistas do grupo.

Apesar de ter atacado o jogo inteiro, marcando o time adversário em cima os 90 minutos, a equipe de Dilma só conseguiu a vitória no finalzinho, mas conseguiu construir boa vantagem no final.

Como não podia deixar de ser, a torcida de casa saiu festejando animada, lembrando aos visitantes, que já estão há oito anos sem título, que eles hão de amargar mais quatro anos na fila.

Sobre o resultado, Dilma falou: " Foi um resultado muito justo, a equipe jogou bem, a gente fez tudo que o professor mandou, marcamos em cima o tempo todo faturamos os três pontos. Em time que está ganhando não se mexe".

Já Serra se limitou a dizer que " se fosse uma queda de braço eu teria ganho".